Íntimo transeunte
- Matheus Lopes Quirino
- 17 de jan. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de abr. de 2020
\\ ENTREVERES
Ele se mexe e, de repente, acorda com a visão perfeita do teu próprio corpo, flutuando no quarto, como se uma magia estranha chegasse se apoderando de sua consciência.
Por Matheus Lopes Quirino

O dançarino Rudolf Nureyev, fotografado pela revista Time em 1960
Ele sai de casa tarde. Chega tarde. Dorme tarde. Usa coturnos ingleses, masca chicletes importados. Anda de óculos escuros clubmaster, volve. Não dirige. Anda de táxi e sempre chega atrasado. Ele tem muitos amigos, é popular, tem a madrugada como companheira. Não para quieto, a perna a tremer, vive sempre chapado, se não por amor, por lisérgicos involuntários – quase a mesma coisa. Ele está curvado, de pernas cruzadas, observando o amanhecer que, de longe, acena do fundo das montanhas que cercam a cidade.
Parece estar sempre tudo bem. A fala mansa combina com os olhos meio caídos, as pupilas dilatadas, o cabelo enrolado e a camisa branca suada, quase transparente. Ele toca em uma banda de garagem aos fins de semana, está de saco cheio do futuro. Isso lhe incomoda. Tem procurado referências no Rock Progressivo, no Zen, na Movida Madrileña, na Nouvelle Vague, na Pop Art, no Indie, no Movimento dos Sem Terra, na literatura Russa, Americana. Ele compra cigarro de palha avulsos na banca de jornal.
Outra vez, anoitece. Ele está em seu quarto só de jeans azul americano, com um lápis 2b laranja na boca a rabiscar um caderno sem pauta, encadernado com couro. Ele dorme no processo, acorda suado e se joga num banho frio para despertar. Já é madrugada e ele precisa sair de fininho para não acordar os pais. Pula a janela do quarto, a rapaziada está a sua espera não muito longe dali. Ele tem cinquenta pilas no bolso para aproveitar a noite.
Esse jovem sonha durante toda a noite. As coisas mais improváveis e indizíveis. Ele se mexe e, de repente, acorda com a visão perfeita do teu próprio corpo, flutuando no quarto, como se uma magia estranha chegasse se apoderando de sua consciência. Um, dois, três. Ele conta, respira. Aperta os olhos e as têmporas. Ele precisa acordar. A noite é fria e o sono pesado. Na manhã seguinte, só resta a ele dar um nó mais firme no coturno e ir andando...
Ele está num carro conversível velho; está em um beco no centro da cidade, trafega livre pelas gangues, sempre com o sorriso aberto. Ele também está nos terraços, dentro dos quadros, das fotografias. No fundo das xícaras de chá e café. Ele está na capa dos livros, nas porcelanas, nos rótulos de bebidas gasosas, nos encartes de cds, em outdoors, nas propagandas de seguros de vida, de postos de gasolina, de bolsas de grife, de cuecas, de comidas rápidas, de grandes empreendimentos.
Ele está nas ruas, passando despercebido por tanto, em meio a multidões. Foi visto uma vez, somente uma. Balança os cabelos pelo ar. Para um instante e dobra uma esquina. Incrivelmente, ele segue fabuloso e ritmado. Canta quase sussurrando uma música que quase ninguém conhece. Quase ninguém. Exceto: ele conhece. Ele sabe. O rapaz o convida com um sorriso meio aristocrático, meio mundano, quase como se um amor denunciasse sua permanência na terra. E por ele, só por ele, sim, fosse nas nuvens impresso um selo de poeta, um clarão, uma evidência insuspeita, uma certeza bela, uma consequência sabida, uma inciência vivida, algo para recordar. Como o rapaz que anda por essas, cada vez mais, íntimas ruas.
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