Tolices
- Bruno Pernambuco
- 8 de set. de 2020
- 1 min de leitura
\\ TERCEIRO SINAL
Por Bruno Pernambuco

Tolices
Quando estou com o rio
um abismo nos cerca.
Nossas diferenças são infinitas,
nenhuma classificação podemos dividir.
Não tem resposta
-talvez devesse-
a minha pergunta:
qual delas é que nos distingue?
Ele ri.
Pode ser a velocidade com que passamos.
Talvez o que somos por dentro
eu, só a maior parte água.
Ou então na hora em que as vozes são baixas,
se é que ele conhece voz,
os poemas que ele esconde,
se ele também os esconde,
sejam completamente seus.
(Me convenço, ao rio não cabem casos de plágio.
Só assim ele é, correndo.
Sincero
e sem dívidas.).
Ele ri.
Podíamos não ser tão absolutamente separados.
Podíamos compartilhar mais que a distância.
A língua dos peixes, se existe, ele talvez não entenda.
Talvez do jeito que um instante de espanto me atravessa
e a conversa dos meus seres fica indecodificada.
Ele ri. Sim, podíamos
mas eu tenho quarta-feira depois da terça.
Tenho garrafa contendo a água, dor nas costas, atraso para os compromissos,
outra cara numa foto antiga,
palavras nas declarações de amor
cabeça e, dentro dela, pensamentos
-alguns que me assombram
como o brilho das velas
de um aniversário que chega a tempo de ser o último.
Tenho também o riso
naqueles momentos em que não devia.
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