Réquiem de bistrot
- Matheus Lopes Quirino
- 9 de out. de 2019
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de abr. de 2020
\\ ENTREVERES
Jantávamos um de frente para o outro. Tocava música clássica no salão. Raramente nos olhávamos. Ela ria de algo misterioso
Por Matheus Lopes Quirino
Eu estava lá. A observava enrolando os fios de macarrão nos dentes do garfo, em um minucioso trabalho. Todo cuidado era pouco, aos poucos, o emaranhado de fios com molho pedaçudo de tomate se desenrolava. O arranjo desfeito espirrava finas gotículas de sangue no echarpe. Mordia prata, aço, línguas estranhas. Ela estava tão tímida, apreensiva, ela olhava para a massa com a maior das aflições. Olhava para a faca ao seu lado esquerdo da mesa. A vontade de munir-se dela e, de uma vez, cortar com veemência aquele novelo de trigo, ovos e semolina era grande. No entanto, não o fez, continuou enrolando, enrolando, precisava se atentar à etiqueta.
E fosse aquele o único martírio, não. A gargantilha estava apertada, roçando nos poros, causando-lhe uma coceira sufocante. Ela sorria amarelo. Queria se livrar de todos os balangandãs que adornavam seus braços, orelhas, dedos. Continuava sorrindo, com pose aristocrática. Ela me observava como se eu fosse uma caça indefesa, marcado para morrer.
Via meu suor escorrer. Percebia a dificuldade de respirar, minha dificuldade em engolir um pedaço maior de carne. Tossia um tanto. A gravata estava apertada. Ela, de algum modo, sabia. Ela sabia e sorria, faceira. Seus olhos me irritavam, minhas abotoaduras estavam pressionando meus pulsos. Meu traje de gala me apertava como um processador de ar.
Jantávamos um de frente para o outro. Tocava música clássica no salão. Raramente nos olhávamos. Ela ria de algo misterioso. Estava triste ali, do outro lado da mesa. Ela estava incomodada, pediu ao garçom uma bebida forte — que recusei. Desdei o nó na gravata. Tudo pareceu melhorar por um segundo. Pedi um drink fraco, esperaria.
No segundo seguinte, já não via mais seu rosto, os balangandãs, o prato, o emaranhado. Nada. A música continuava tocando, cada vez mais ruidosa. Eu estava no chão, o sangue, esparramado por minha camisa branca de algodão. Estirado, olhos esbugalhados, um esguio filete de sangue saia de meus lábios tão vermelhos, tão vermelhos.
Não me lembro de qual foi a minha última palavra. Talvez “Me passe o sal”.
Foi um infarto fulminante. Causado por uma série de problemas do coração. Naquela noite não bebi ou fumei, me embriaguei nos olhos dela. Também não pedi sobremesa, entrada ou café. Os ponteiros se aceleraram. Jantava sozinho, quieto, surdo, spaghetti ao pomodoro, água com gás, almôndegas e mais nada.
PS: Caros leitores, entrarei de férias, o cronista necessita. Nos vemos em meados de novembro.
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