Prova-me de novo
- Bruno Pernambuco
- 13 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
\\ CRÔNICAS
O cheiro e o gosto sabem no tempo de uma intuição se se está alegre, se se está triste, se se está apaixonado; o resto é só desfaçatez.
Por Bruno Pernambuco

Amar nada mais é do que isso: amar e lembrar, amar e esquecer. Amar um gesto, um cheiro, uma flor, um livro, uma página lida, uma não, uma graça, uma delicadeza. Amar aquelas mudanças mínimas do cheiro, ou saber de coração as minúcias do que a língua deixa ao passear pela boca. O olfato e paladar sabem sobre o que sentimos muito, mas muito melhor do que nós mesmos. É impossível enganá-los. O cheiro e o gosto sabem no tempo de uma intuição se se está alegre, se se está triste, se se está apaixonado; o resto é só desfaçatez. Não é à toa que de Homero a Proust entenderam, cada um a seu jeito, que é pela boca que nascem boas histórias. A sua rapidez, dos seus movimentos, do seu raciocínio é realmente meio impossível de ser acompanhada pela razão - alguns, como o próprio Proust, são grande comediantes, mestres em trabalhar esse motivo cômico original, essa demora em aprender aquilo que se sabe. Ainda bem que existem esses: se tudo passas apenas na leveza, a vida seria muito angustiante.
Os primeiros sintomas do vírus, ouço dizer, começam em se sentir abobado, meio tonto e sem compreensão. Depois na enxaqueca, dor de garganta; acostuma-se a um pequeno zumbido na cabeça e a uma dor atrás dos olhos, e então a uma magreza cinza e monótona, a uma nuvem estacionada, à carroça empacada, ao final do copo, à tarde igual, à constipação, à dúvida, a um revirar dos olhos, a uma torcida do nariz, a uma resignação altiva. Meu avô nunca amou muito nada, nem ninguém. Meu avô sempre teve problemas no nariz, lembro-me disso.
Uma paisagem repartida, assim, de um nada. Um gosto ainda me chega na boca muito antes que eu lembre de que é. É essa falta que eu saboreio, com quem brinco e onde onde me agarro como à coisa amada. Assim acabaram minhas palavras. Disse poucas coisas, apesar de serem muitas, mas de qualquer forma acho que disse. Findou o texto. Estou sozinho. Subitamente, é novembro. De quem me lembro?
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