Conversa com folhas - Ângelo Dos Santos
- André Vieira
- 14 de fev. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de jul. de 2020
\\ CRÔNICAS
Epilogue of Life, Mihai Criste
Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.
Da mesma forma, caso queira saber quem é Ângelo , aconselho a todos para começar por aqui.
“Hoje na pequena manhã que me extasiei para levantar — do véu de retalhados de sonhos pormenores e tão pormenorizados —, não soube, até poucos-muitos minutos atrás, quando a panela acusava o cozimento do feijão e a mãe puxava a mão para puxar o filho malcriado para se sentar à mesa, o que foi fruto do imaginário particular e o que era frutífero da concretude imaginária do coletivo: no caso, de meus pais egoístas, que tomam todo o café para si e me azedam a língua com o paladar amago do guache no vaso de plantas e do café na caneca térmica, e do irmão fedelho, que insiste traçar caminhos velhos, repetir passagens conhecidas, e enveredar veredas repetidas para se enfurnar no labirinto digital do Minotauro a pilha e da diversão a cabo — seria mais fácil se ele pelo menos me deixasse me perder com ele, mas as paredes insólitas e as horas insones parecem passar divagar quando se caminha em direção ao próprio arruinamento das cerdas e esquecimento das palavras: que as esquecesse com ele, pelo menos.
Os grãos brancos se desprendiam da dama de ferro fumegante, o boi passava, ainda
mugindo, de louças em louças, lavrando nos porcelanatos e na toalha bordada estendida pela mesa a prova viva da violência consumada, o relato verdadeiro da viva partida, o testemunho ocular de pais, filhos, desempregados, arquitetos e desembarcadores que a morte se fazia ali presente naquele recinto (ou seria jazigo?) de festas lautas, pratos cheios e domingo ensolarado de pré-carnaval opulento. As ferramentas de corte se apresentaram como meros instrumentos de dor: esgarçavam tâmaras e dilaceravam nozes, pinçavam cortes e costuravam carnes, penteavam cremes, patês, pavês, glacês e esmiuçavam panelas, tigelas, travessas, caçarolas à procura do último resquício de proteína ou hemoglobina que restava naquele jazigo (agora, sim) habitado pelo fim Intermitentemente intempestivo da morte — o pior de tudo é que meus lábios urgiam de alegria e meus olhos brilhavam de bem-aventurança ao ver o comensal da morte irromper naquela mesa redonda de semelhantes do pecado e estranhos à temperança, do desejo maior de Nosso Senhor de fazer paz por entre seus reinos e domínios.
Ao cabo do holocausto de grãos, carnes, massas, risotos e líquidos viscosos — tais como o sangue do nosso senhor pingando sobre o solo sagrado—, soube enfim, que a perda produzida ali era mero fruto de minhas indagações mais profundas, de minhas provações mais estoicas aliadas a um mergulho frio, nervoso, calculado nas origens de nossas origens: na miscelânia fundida sob o fervor do cadinho na brasa, colocando sobre o espeto e o fogaréu aquilo que nos era diferente, que nos ainda era novo, o que se justiçava com lenha, ferro em fogo e xisto o que justificava pelo fervoro de olhos fumegantes em chamas e das folhas queimadas da vergonha de nossos profetas.
— E a palavra que um dia foi apenas verbo, intransitivo, intranquilo e intransigente era um conjunto homens, mulheres e não-homens e não-mulheres a viver daquilo que só se pode — vagamente — ser lembrado.
Querido, você pode me passar um contato de algum analista? Acho que este relato inteiro dispensa maiores explicações....
Um grande abraço,
Ângelo."
(Carta recebida hoje pela manhã)
Conversa com folhas
Antigas estórias:
Infância duma criança
Habitar memória.
Ângelo dos Santos
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