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[Nota de esclarecimento] Autocárcere - André Vieira

  • Foto do escritor: André Vieira
    André Vieira
  • 23 de mar. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 10 de jul. de 2020

\\ CRÔNICAS


As prisões imaginárias, Giovani Battista


Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.


Olá a todas e a todos. Tudo bem com vocês, galares? (Perdão pela linguagem millennial). Já está um tanto óbvio porque título deste texto dispõe sobre “esclarecimentos”, afinal, já faz quase três semanas que o leitor ávido ― sim, minha mãe, meu cachorro e minha webnamorada, também contam, tá? ― chega estarrecido em casa, depois de uma longa jornada de trabalho na frente do computador, e pergunta, ressabiado, aos seus queridos colegas com quem divide o flat ou se espreme na quitinete de trinte e cinco metros quadrados: “cadê o viado do André, caralho?”, seguido de vários pontapés mortais proferidos no televisor de trinta e duas polegadas e do arremesso surdo, no escuro da noite ensone da capital paulistana, do celular de doze por doze contra parede a branca ― ou não tão branca ― do imóvel alugado pelo amiguinho da firma.


Pois então, caríssimo leitor. A despeito do fato de minha orientação sexual ser hétero e d’eu não pôr o caralho na boca ― a não ser que seja um daqueles deliciosos caralinhos de chocolate ao leite que andarilhos e transeuntes das artes vendem a rodo na rua Augusta, com receio de doce de leite embrulhado em papel vermelho-alumínio, sensual, provocante, carnudo (pois é, meus caros. Faz tanto tempo que só fico imaginado essa maravilha, que quando a nomeio até me emociono) ―, dou razão total e integral a vossa ira, ô grandes apreciadores das artes mal compreendidas e de poetas-escritores reclusos que vivem à espera da ínfima possibilidade de se agarrar ao estado e mamá-lo até cu fazer pio ― ou até que uma nova gestão de antilacrodores, antiativistas, antimaconhistas, e anticomunistas de antiantis aparecer pelas bandas e mandar chumbo grosso na nossa cachola. Aliás, antes de prosseguir com esse leve lembrete-desabafo, gostaria de agradecer a todos os eleitores que deram respaldo àquele palhaço no Palácio e àquelas mulas no Congresso: não satisfeitos em foder com os esquema’ dos artistas, ‘cês querem meter o loko com aposentados, trabalhadores e agora, vejam só, até com os desempregados? Rapaz, por que tanto ódio no coração...? Se você precisar de um teleabraço, um aconchego remoto via Grinder ou de beijo molhado nas salas soturnas do Telo pode me ligar no horário comercial a partir das 10h (981129399): aviso que sou facinho, hein??? ― após o merchand-convite pseudossexual, vamos seguindo com nossa programação. Atualização, o posto ipiranga, pediu pra revogar o pataquá.


O verdadeiro motivo desta nota de esclarecimento já deve ser bem claro a todos: o Coronavírus (leia em voz alta imitando a Cardi B ou deixarei de ser seu amigo no Tumblr). Neste tempos de encarceramento do corpo e aprisionamento da alma pelas pequenas telas que temos às mãos, creio que o melhor remédio para remediar esse acúmulo de ansiedade, estresse, e tempo inesgotável que escorre por entre nossos dedos e se solidifica numa crosta sólida de ócio improdutivo seja a escrita e os ofícios ligados à sua arte. Afinal, do que que vale nossas gloriosas memórias de noites abertas pelas cortinas aveludadas do bar e encerradas apenas quando a ressaca batia forte o crânio oco da ressaca ― não nos é estranho relembrar com carinho os inconvenientes da bebedeira e da depravação? ―, se as mantemos reservadas a nossos familiares, nossos amigos e a nós mesmos?


Mas para escrever seu texto não precisa buscar inspiração numa obra-prima, se esguelhar para produzir um relato tocante, ou se censurar por não ter escrito uma poesia “cabeça” ― inclusive, sobre essas três categorias sugeriria ao leitor dar uma olhadinha na última maravilha que Matheus Lopes botou no mundo. Às vezes, um pequeno diário de bordo que abarca nossas desventuras matinais e nossos corpos se organizando à nova rotina de nossos trabalhos, de nossas tarefas domésticas, e da convivência D-I-Á-R-I-A (na maioria dos casos) com nossos entes queridos, pode dizer muito mais do que a Epopeia de Homero e as fábulas de Dom Quixote. Um bom texto é aquele lugar onde conseguimos transmitir nossa estática ao longo do longo teclado e iluminar, através de relatos, vivências e experiências os pequenos feixes de luz que compõem nossa humanidade e nossa individualidade; afinal não estamos sozinhos entre as estrelas.


É por isso, meu querido leitor e minha querida leitora, que convido a todos a fazerem parte dessa galáxia comigo. Diariamente ― ou quase isso ―, postarei minhas observações acerca desse momento de transformação de nossas vidas. Haverá dias bons, como certamente, trovejarão dias ruins; contudo, lhes juro que não deixarei esses pensamentos gestados apenas dentro de meus fundilhos: acredito que mais vale compartilhar um sentimento banal, ou uma percepção natimorta do que guardar dentro de si um algo muito grande para nossas barrigas ou pesado demais para nossos ombros. E é assim, querides ― juro para você que ‘cê pode parar de me ler agora... ―, que reitero o convite que fiz acima a todos vocês. Os dias podem ser mórbidos, o ânimo e a vontade para percorrer as jornadas podem ser sórdidos, mas garanto a vocês, queridos ― e até por isso lhes dei meu telefone ― que se conversarmos mais e dialogarmos mais, esse período de trevas passará suavamente e o vazio de nossos dias será preenchido por histórias tão interessantes quanto as nossas.

Um bj e até amanhã,

André


Autocárcere


Hábitos amargos.

Acendo a morte entre os dedos

Lábios e cigarros.


André Vieira


Um beijo do bundão que vos escreve.


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