Caravana do subterrâneo - Ângelo dos Santos
- André Vieira
- 29 de mar. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de jul. de 2020
\\ CRÔNICAS

As formigas, Salvador Dali
Fazia tempo que não botava nos pés ali, naquele tapete de espuma rosado, ao lado da estátua da liberdade mimetizada por plástico barato, com pintura de segunda mão e acabamento por acabar, e de pequenas luzinhas do natal passado; mas, por algum motivo, aquela estátua regurgitada em metal esverdeado, e aquele pedaço singelo do pompom cor-de-rosa que faziam cosquinhas nos pés seriam as melhores — pra não dizer as únicas — lembranças de uma vida que um dia existiu naquele bairro.
Das crianças que ziguezagueavam as mesas familiares de jarras e sanduíches frescos à procura de trocados para se fartarem de picolés; dos homens sérios, de passos milimetrados e barbas & cabelos na régua que se espremiam entre o balcão de mármore esfumaçado pela cevada quente e pelo atendente barbado perfumado pelo suor longo e o café expresso; e por fim, nós, pequenos e desconhecidos senhores e senhoras que tomam o renascer do dia no jornal amarelado, e engolem no café pingando com torradas moles, o reflorescer da vida.
Mas hoje, o pipoqueiro não vende, o mendigo não mente, o amolador não sopra, a moça não pisca, a rua não canta. Desde que o outono veio, a voz ficou, assim esgarçada, rouca e baixa. Nem as árvores se despiram, nem os homens se cobriram, mas frio veio; e com ele o medo do sol nunca voltar. Acho curioso tudo isso: como um simples mudar de ventos, de rodopiar de galos e ventilar de rosas, faz nascer na pele um calafrio tão fundo, uma repulsa tão grande que viver a vida e estendê-la a conhecer o outro que convive conosco — a abraçar aquele vive dentro de nós —, parece um gesto mágico, um rito sagrado que põe por tudo que valorizávamos e acreditávamos.
Que a vida para, e o tédio flutua e a culpa nebula, isso é mais do que certo; mas a quem devemos a honra de nossa (in)felicidade? Às grandes jogadinhas na moda & do atacado no shopping? Às traquinagens do estilo ébrio e da avidez etílica, sempre após uma reunião “vazia” ou um dia “cheio”? Ou aos hábitos corriqueiros, às vontades mórbidas de sempre sair em uma grande aventura para ganhar o mundo e se fazer importante ou partir numa grande viagem para achar o choco oco coco?
E ficar em casa é motivo de sentir dor, solidão e arrependimento? Nesses anos todos que me forcei à profissão de ilustrador e de jornalista fracassado — não contem essa parte a meus filhos, por favor —, aprendi em seus anos de autocárcere ou de pleno engaiolamento: aprendi que não é preciso andar muito, nem conhecer muito para ser feliz. Que precisamos matar o tédio, remediar a dúvida, nutrir os sonhos e apagar os fogos — o meu e o dela, evidentemente — é claro, contudo é também hígido — e às vezes até mais importante do que acordar com as calcinhas na cabeça e a cara na privada — cuidar daquilo que é comum a homens, a mulheres, a velhos e crianças, o precioso conteúdo contido no profundo baú da cuca.
Se olhe no espelho: o que vê? Um nariz arrebitado de uma moça de pernas longas que vai ao trabalho?; um sorriso branco de um homem careca de peitos robustos?; ou um rosto inocente, de bochechas coradas, de um infante com uma vida inteira à frente? Ou apenas a cara dum bobo, de alguém que teve olhar pro espelho, e parar a música que estava ouvindo pra adornar o cabelos e pentear o bigode porque outro alguém lhe pediu — embora eu reconheça que desde segunda não tenha tomado banho (dessa vez, peço que não conte à patroa) —: quem somos? Aquilo que gostaríamos de enxergar, no reflexo frio de ambições fúlgidas e no opaco fervor da nostalgia lúgubre, ou, talvez, aquilo que a imagem mostra, que a íris realça, que com o semblante relaxado não disfarça? — por quem o coração palpita e por quem acordamos todo santo dia pra tomar café com leite e ler jornal ao lado de biscoitos amanteigados.
A resposta a essa pergunta — e do porquê eu durmo de meias — eu tive hoje de manhã, quando me travei numa batalha contra inimigos invisíveis roubando o potássio amarelo da fruteira — esses danados... Tentei, em vão, dar cabo à invasão alienígena ao que seria o grande assalto ao banco central da frutas de casa — B.C.F.C, quase um clube de futebol de várzea; e ali percebi, quando as lágrimas e o suor desceram correndo queixo, e os braços moles, cansados, acusaram o nocaute, o verdadeiro sentido daquilo tudo:
A despeito da minha ira gólem perante o submarino amarelo e o exército de fúlgidos gnomos lânguidos, a caravana ainda arrebatava viagem pelo deserto da cozinha e o Fort Inox dourado, de dobradiças fumês, mesmo sendo assolado, surrupiado, e devastado, continuava ali, de pé, persistindo aos pequenos intrometidos que o chateavam a carne e roçavam-no a pele. Foi ali, assistindo à romaria assassina da banana, que enfim, entendi porque bananas aguentam ser bananas, formigas persistem em ser formigas e velhos, sobretudo, os “moderninhos” como o vovô aqui, insistem nessa coisa de brógui, facibûqui e instagrão para terceira idade — Bom dia, caraio.
Exatamene porque é aquilo que nos resta, é aquilo que nos define, e sobretudo é aquilo que melhor sabemos fazer entre uma megaoperação de conquista das terras da Bananalândia — e olha que lá só tem coqueiro — e um cochilo mórbido entre o café das três e a janta das cinco. É talvez, à regalia do tempo mórbido e do tédio deletério, saber buscar abraçar aquilo que realmente nos incomoda, de cacoetes estéreis a traumas abstrusos, que privam o sonho e enxáguam a vida sórdida. Como formigas e bananas — e talvez velhos tarados que ficam mexendo nesse troço das redes (POR FAVOR NÃO MOSTREM ESSE TEXTO À MINHA FAMÍLIA) —, o tempo de enclausuramento seja uma boa oportunidade para pensarmos quem somos nós frente ao espelho e quem, talvez, gostaríamos de ser daqui pra frente: resolvendo um problema por vez, como pequenas formiguinhas seguindo a fila ou ficando imóvel como a banana?
Um bj do vovô,
Ângelo
Caravana do subterrâneo
Asfalto de feira.
Formigas forram a Vila:
Assalto a Fruteiras.
Ângelo dos Santos
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