O mistério do homem sem olho
- Frentes Versos
- 31 de mar. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 5 de abr. de 2020
\\ CONTOS
O calor do cerrado sempre me deu percepção. Percebo: tudo é tão simples.
Por Octávio Ferreira

The Face of War, Salvador Dali
Pensei aos treze ter respondido Shakespeare: a questão colocada por Hamlet era óbvia, ser. Sabia disso porque estou sozinha no mundo. E o sentimento de exclusão e solidão cria, indubitavelmente, uma sensação de não pertencimento, que te leva ao questionamento da ordem. Flutuo em cima de todos, um fóton parado. Não me vedes nunca. Sou filha de Hamlet e Virgínia Woolf. Vivo num espelho, não me vedes e nunca verás, sou deidade. Num húngaro sentei, pena: descobri tempo depois que nossa concepção de vida se fecundou em outra. Pequeno e nojento arcanjo.
Pensava nesse pequeno arcanjo, tão perto de mim quanto aqueles presentes aqui nesta sala, no momento em que consigo me interessar um pouco pelo que diziam. No tema da conversa, mais alguma coisa do tipo eu estou certo e não você. Eu crio mais e não você. Naquela época da faculdade de Letras nada criava, e muito menos os que diziam que criavam.
"Lucas, você não sabe da lei de Darwin" - pergunta o brutamontes à esquerda.
"Que lei cara? o que isso tem com o tema da apresentação?" – responde exaltado meu professor.
"Uai, aquele negócio de que todo mundo é bicho. Tipo, nóis é tudo igual, pra que precisar de cota então?" – de onde estou não consigo localizar com clareza a voz, mas vejo que o enunciador sofre.
"A militância epistemológica é importante porque dá margem à sensibilidade das colônias" – diz Lucas em tom de conclusão.
Somando-se à tais e inúmeras indagações, oferece uma senhora chá e bolo. Se misturava ao resto da sala de forma perfeitamente incômoda, narcisista, queria ser vista. Participara de forma direta nos acontecimentos últimos de nossa sala. Tomávamos o chá sem pensar nas ideologias. Nunca gostei daquele tipo de apresentação acadêmica. Sentia, de maneira que poucas de minhas colegas entenderiam anos depois, que aquele era um ritual cristão, metamorfoseado pela modernidade num pseudopagão. A verdade é que sim, ainda hoje, o estado nos estupra; o professor é aquele que esconde o estupro, mata seu filho e te leva à igreja. Toneladas de epistemologias porcas. Apresentações enfadonhas e pouco substanciais não irão mudar isso. Infelizmente, sentia como se precisasse fazer algo.
Vejo o professor, está com toda certeza cheirado de cocaína: a boca seca, o suor intermitente, a cantar música gospel, segundo mensagem de ontem, muito decepcionado com nós todos. Careca, sem nenhuma inclinação a qualquer tipo de higiene, ética ou intelectual, debate e questiona todos os tópicos que o grupo apresenta. Quer parecer engajado, se sentir incluído, mas os acontecimentos dessa semana, uma denúncia no conselho de ética da universidade, que, mesmo concordando com a denúncia, pouco entendo a necessidade de tão pouca humanidade nas decisões, levaram-no a chegar atrasado hoje, não lembro de ter acontecido antes nos quatro anos em que o conheço, e a dieta feita durante o ano, sempre se via gordo demais, fizeram-no vir trabalhar drogado. Com olhos vermelhos, come o triste bolo indiano comprado por uma aluna no hipermercado da esquina.
"Abandonei a dieta essa semana" diz para justificar a fome visceral que sentia. Nada mais que um homem grande, cheira e come. Cheirou hoje antes de vir. Come agora um café da manhã carregado de achismos.
Depois de pouco ponderar, decido sair dali. Estava com fome; aquilo tudo demandando mais tempo do que o humanamente mínimo a se fazer nessas ocasiões. Chego ao shopping na certeza singela de saber que há lá tudo que procuro. É claro, e isso é uma conclusão do imaginário social, que os shoppings são um pequeno recreio na vivência fascista cotidiana. Mas tenho fome. Sinto uma fome que não consigo explicar a ninguém. Tenho fome de existência, fome de entendimentos.
No almoço tudo parece derramar em mim. Sou fraca. A decisão de comer carne não foi minha e nem é de ninguém. Não como. Tento comer o pastel assado de brócolis, integral, como eu. Muitas vezes sou esse pastel: em público, visto como uma ameaça à concepção carnívora da sociedade, sou integral em mim mesma, sou uma mulher simples, neste momento apenas duas manias: segurar o pastel quente, quase queimando. Lembrar quando a queimadura socrática aconteceu.
O calor do cerrado sempre me deu percepção. Percebo: tudo é tão simples. Ligo, desculpas em nome de uma relação saudável entre professor e aluna. Depois de alguns minutos, decidimos nos encontrar na rodoviária a fim de tomar um ônibus rumo a um município próximo porque os únicos filmes no pequeno cinema da cidade foram produzidos até 1933. Há anos o dono do cinema revisa e enfia propaganda anticomunista goela à baixo da população. Vejo o dono do cinema no almoço, rosto comum.
O verde do pastel de brócolis é tão lindo que causa amnésia. É socialmente aceitável se esquecer do alfabeto inteiro de Zyklon, onde se banha as verduras. O verde queima a atenção do dono do cinema, durante um pequeno segundo, percebo, me olha. Nada mais em mim chama atenção. O verde se torna uma epifania perdida.
Vou embora. Sempre cheio o elevador da praça de alimentação, decido seguir até o outro pavilhão do shopping para descer no lado do estacionamento que dá saída à rodoviária. Me queimei de novo, vejo ele e seu pequeno arcanjo, brincando, cada vez que se distancia de mim o vejo mais, esqueço de mim e não dele. Mas eu precisava falar com Lucas esta noite e aquela tentação passa, na certeza de que as minhas intenções são as mais nobres, pelo menos minha ideia de verdade é, deixo-o. O shopping se ligava diretamente à rodoviária, uma ponte conectava os lados, numa unidade cinza e capitalista. Paro. Precisava me acalmar antes de comprar a passagem, ele me manda uma mensagem pedindo parcimônia na análise do filme. Pede desculpas pela mediocridade hollywoodiana, não sei o porquê disso, todos sabem que vamos a esse tipo de filme não para contemplar o belo, entender a vida, mas, de modo quase religioso, para exaltar valores capitalistas e nos distanciar cada vez mais dá ideia de um eu latente. Sobre o enredo, mais do mesmo, cópia malfeita dos grandes mestres e mestras. De vez em quando, uma interpretação coerente, materna, da verdade, e até dessa mediocridade intelectual das produções contemporâneas, aparece, ganha tantos prêmios que todas essas qualidades se liquefazem. Alma que não grita, mata.
As passagens de ônibus para o interior de Goiás ficavam no flanco da linha de guichês, desde pequena me parecia que aquele lugar era feito para evitar a ida ao interior. A fila para compra de passagens é enorme, no entanto, Lucas chega e se diz cliente especial de uma das empresas, depois das mulheres grávidas, ele, parecendo estar grávido de si mesmo, poderá comprar nossos ingressos. Me sinto feliz, o calor na medida certa, uma companhia segura e uma viagem que será tranquila. A quantidade de gente angustiada na fila denota a necessidade de evitar o cine33 (assim ficou conhecido o famigerado). Pensava, eu, ser uma atividade corriqueira, porém... ao entrarmos no ônibus: fala de todas as verdades de repente. Não havia nada que pudesse fazer para lhe calar. Gostaria de poder fazer algo. Qualquer coisa valeria. Gramaticalmente não posso lhe fazer parar de falar, me consome sua voz.
"Sempre te quis. Desde ontem, quando dá certeza que vós fizestes a denúncia. Sem tempo para pequenas inquietações, fui correndo à igreja, à luz dela, àquela deusa tudo se basta. Tudo se faz e a única necessidade é a de descrever essa sensação... essa aqui ó............ vamos dançar... tudo é simples, ninguém morre. A deusa escreve certo por linhas certas. Chega de truísmos, de narrativas fechadas, tomei de café da manhã os franceses"
Minha intenção com um professor não era essa. O cinema dinamarquês nunca seria como o húngaro, sendo o húngaro uma mentira falsa sobre o brasileiro. O filme que iríamos ver: "O mistério do homem sem olho". Ele se senta, poucos viram seu choro, apenas uma ou três grávidas. O ônibus seguia numa linha quântica, cada fila tendo dois assentos. Lucas levanta o braço mecânico que nos divide. Nossa dor. Tento conversar, neste meio tempo minhas pernas tocam de leve na dele. Ele nada diz, mas faz uma expressão de desespero gutural. Os passageiros entram, cada qual com suas próprias queimaduras. Somos um vórtex da não visão. Nada nos vê de verdade. Do banco da janela não consigo ver muita coisa. Escuto um estrondo. A grávida cai ao ir no banheiro. De prontidão Lucas a ajuda. Volta e se senta, dizendo: "Tudo é uma obra de arte, porque, em seu estado de existir, algo é em si mesmo. Não existe imperfeições exteriores à obra, daí a natureza hermenêutica da arte".
O sol se pondo quando dá partida o motorista. A luz no ônibus se torna quase cega, todos seguimos num choro silencioso. Lucas apenas é. Não sabe ser. Fruto de incontáveis imagens, chora: "quero-te, quero-te", como todos os outros, chafurdado em tudo, apenas é. Sem saber ser.
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