\\ ANTENA artista em foco Erika Francelino
Claro, o corpo feminino tem uma forma definida. Tem uma massa, tem uma textura, tem digitais, tem pelos, tem sangue.
Por Lia Petrelli
Assim como manda a poética de Erika Francelino, a conversa que se segue foi amarrada aos fluxos que constroem mulheres – coletivas e individuais. Qualquer tipo de empoderamento denota algo que existe dentro de você que não pode ser abdicado pelo outro.
A forma feminina que carrega culpa, solidão, que carrega as marcas, enquanto os outros corpos estão “livres”, pode ser renovada. É justamente isso que faz Erika em seu trabalho, através do maravilhamento da dualidade.
Em um momento onde a cultura pede a abertura de diálogos é importante que criemos uma nova fórmula, novas plataformas para não abandonar o meio que mais necessita de auxílio: apoiarmos a nós mesmas é imprescindível. Por isso, encontrei Erika num sábado chuvoso para conversarmos sobre sua nova série de ilustrações, TPM.
Você sempre trabalhou com a questão do feminino?
Não necessariamente. O que acontece: eu sinto que meu trabalho é muito mutável, ele vai se organizando dependendo muito das influências de como estou me sentindo. No geral, tem uma coisa de autobiográfica nele. Então não necessariamente eu trabalhe só com a questão do feminino, mas como é muito sobre mim, acaba sempre entrando uma coisinha ou outra... É muito difícil eu tentar me desprender disso.
Mesmo quando eu estou trabalhando uma questão que psicológica eu acabo transformando aquilo numa massa que ainda assim tem uma referência feminina, sabe? Como eu me uso como referência, e eu sou mulher, acho que essas coisas são pulsantes, é um pouco difícil de separar mesmo.
Me conta um pouco sobre as ilustrações que você tem feito?
Ela está surgindo. Eu comecei a fazer esse tipo de traço, quando eu estava no final do trabalho final da faculdade – só que não fez sentido para mim naquela época. Não era uma coisa que me atraia visualmente.
Eu revisitei alguns trabalhos, agora na quarentena, e agora está fazendo muito sentido para mim. Eu tenho feito essas imagens entrelaçadas, que geralmente você não consegue ver muito bem o rosto, essa mistura de corpos, alguma coisa enlaçada a algo que está acontecendo com todo mundo na quarentena. Sinto que tivemos um momento de livre e espontânea obrigação de ficarmos sozinhos, e com isso descobrimos coisas que nem gostaríamos, ou que nem imaginávamos que iriamos descobrir.
Esta série está muito ligada à relação de autodescoberta, nesse momento em que você está cercado de gente: estamos nas redes sociais, estamos conversando com todo mundo, e ao mesmo tempo estamos ficando sozinhos e eu tenho percebido que para muitas pessoas, estar sozinho agora está sendo uma novidade muito boa.
Penso isso até em relação a mim. Sou uma pessoa que está no rolê, sempre namorando, sempre cheia de gente ao meu redor, e sinto que é a primeira vez que eu fiquei sozinha. Pensei “Ah, quando a quarentena acabar, acho que vou continuar em casa...” (Risos)
É obvio que em alguns momentos, temos altos e baixos, é bom ao mesmo tempo que é ruim, mas é justamente isso que estou descobrindo, sabe? Que eu tenho momentos! Somos feitos de fluidez, de inconstâncias. Sinto que estou passando isso para essa série.
Você escolheu fazer ilustração porque é o material que você tem por aí, à mão, ou por que faz mais sentido para você agora?
Eu geralmente eu gosto de trabalhar com imagem que se entrelaçam, mas um pouco mais afastado da ilustração. Quando eu trabalho imagens elas geralmente vêm do tridimensional: desde uma performance mesmo, corporal, ou como esculturas – meu trabalho é mais para esse lugar.
Ultimamente tenho usado muito mais imagens bidimensionais e indo um pouco mais para esse lugar da ilustração, por conta da falta de espaço, falta de material, da dificuldade, caminhando com essa adaptação. Acabei indo para o lugar do bidimensional, porque não tem como eu ficar montando muitas coisas e deixando outras (muitas) coisas guardadas, ainda mais agora, que estou fritando na quarentena... (Risos)
A forma feminina é feita de todas essas diferenças, de todas as linhas, de todos os seus traços, de todas as suas estrias, as suas rugas... Sabe? Assim como qualquer outra forma.
E isso não te afasta da poética, né? É só uma nova forma de construção. Porque, você trabalha com escultura, como eu, é difícil não ter espaço...
Sim e isso não afasta também que o meu trabalho seja um trabalho relativamente figurativo (talvez). Mesmo quando estou trabalhando com a escultura, normalmente elas são muito figurativas e aí, quando passo para o bidimensional, ou para o desenho no papel, ou no computador (porque venho mexendo muito com arte digital), essa parte figurativa acaba se vinculando muito facilmente à ilustração.
Você sente que o corpo feminino tem uma forma definida?
Achei essa pergunta um charme. (Risos)
Eu fiquei pensando: O que é forma, né? O que é a definição de forma?
Claro, o corpo feminino tem uma forma definida. Tem uma massa, tem uma textura, tem digitais, tem pelos, tem sangue. Minha definição do corpo feminino é essa.
Falarmos sobre as definições da forma feminina é muito interessante, porque estamos num lugar onde estamos descobrindo tantas formas femininas maravilhosas e diferentes: o gênero, a mulher trans, a mulher negra, a mulher gorda, acho isso incrível. Vi a imagem de um casal, onde um dos parceiros é um homem trans, e ele está gravido. Porque ainda existe o útero, achei aquilo completamente mágico! Eu vi um corpo maravilhoso ali, foi uma imagem linda de ver.
Quando você pergunta para mim o que é uma forma feminina, é isso. A forma feminina é feita de todas essas diferenças, de todas as linhas, de todos os seus traços, de todas as suas estrias, as suas rugas... Sabe? Assim como qualquer outra forma.
A forma feminina está tanto nas matérias, formas corporais e físicas, quanto nas nossas formas emocionais e psíquicas, de todas as coisas que passamos e vamos juntando marcas que não são meramente físicas. Está tudo ali. E ainda bem que está, ajuda a lembrar da nossa história.
O seu trabalho é mais para o abstrato, eu diria, sabia? A forma como você monta as imagens que são figurativas, elas acabam se entrelaçando de jeito que parece uma outra coisa, como uma massa de sentimento, mesmo.
Bom saber a visão de outra pessoa, porque acho que tem muito disso. No geral, o intuito do trabalho é você transmitir mesmo essa ideia de corpo e sentimento, ou o corpo e o psicológico... Essas coisas estão atreladas, mas como eu posso transmitir que é um corpo, é um sentimento, é uma sensação, é um pensamento – tudo na mesma imagem, sem deixar bizarro, um turbilhão de coisas.
É bem complexo para mim, porque algumas vezes trago movimentos corporais para o desenho, como trabalhei muito com a dança, é muito mais fácil transformar um sentimento em um movimento, mas não é fácil para mim transformar um sentimento numa imagem visual, que também está trazendo movimento.
É uma dificuldade que tenho, mas que me faz muito bem, porque acabo descobrindo formas de agir durante o trabalho que eu nem imaginava. Meio que “De onde eu tirei isso?”
Sim, e o movimento está muito implícito, porque em A Escarlate, você fez as pessoas se movimentarem até a escultura, e era quase uma dança, atravessar os fios. Como você separa, ou como você enxerga do feminino e feminista? Você acha que elas caminham juntas?
Acho que sim, só que dividido em dois tempos.
Antigamente não tínhamos preestabelecido algumas coisas, algumas questões, por uma questão de falta de informação, de acessibilidade, a questão feminista – por mais que houvesse a luta, era implícita em categorias de pessoas muito especificas. Até hoje muita gente não têm informação.
Penso muito sobre como as pessoas se validam femininas, ou se validam feministas, e qual a diferença disso. Costumo escrever nos meus textos que a partir do momento em que você é mulher, você é um ser feminino. Temos essas classificações de feminino que a sociedade impõe: o que é ser feminino e o que não é ser feminino.
Hoje em dia, para mim, a partir do momento que você é feminina, você é feminista, porque é uma questão básica. É uma luta, sabe? Se você luta por algum direito, mesmo que seja o direito de chegar em casa e não ter que fazer a janta, sei lá, você já está partindo para um movimento, sabe?
Mas as pessoas têm essa dualidade, diferenciar uma coisa da outra, quase como se fosse: o ser feminino é o que você é, e o ser feminista é o que você luta pelo seu ser.
Hoje em dia, para mim, essas coisas andam juntas sim. Mas, historicamente falando, elas não andavam, também por uma questão social.
Hoje temos todo o embate sobre os corpos trans. Se esses corpos se classificam dentro do espectro feminino, também têm que ser englobados na luta feminista. O feminismo sempre foi uma luta de direito, e os corpos trans estão lutando por isso.
Hoje em dia ainda temos muito esse problema: como a sociedade estabelece o que é feminino. Inclusive quando você se diz feminista, as pessoas automaticamente desvinculam o seu lado feminino do seu lado feminista.
Se você se diz feminista, automaticamente não pode ser feminina do jeito que a sociedade impõe que seja uma coisa feminina. Essas coisas estão se atrelando de uma forma, mas ainda com um processo muito lento para conseguirmos identificar tudo isso. É uma das coisas que causam problemas sobre entender o que “é feminino”. O que é uma mulher? O que é uma mulher trans?
Questões do feminismo e do feminista na verdade estão juntas, mas existe uma fronteira para ser quebrada sobre como estabelecemos o lado feminino do lado feminista, e por que essas coisas não podem estar andando juntas de todas as formas.
No seu trabalho, você tenta renovar esse símbolo, do feminino/feminista, ou é mais como uma exaltação desse sentimento dualístico?
O meu trabalho vai em direção muito mais a esse entrelaçamento das coisas. Não é porque é um trabalho falando sobre o feminino que ele está desatrelado de ser um trabalho feminista. E não é porque ele é um trabalho de uma mulher que ele é obrigatoriamente atrelado a ser feminista.
Eu estou falando sobre questões sociais, sobre questões humanas, sobre sentimentos, fazendo disso uma autobiografia minha, como mulher. Gera uma questão feminista, porque é uma questão de luta, e não desatrela o lado feminino disso. É sobre as coisas juntas mesmo, e é proposital. Não é uma coisa que eu tente desalinhar uma coisa da outra.
Não vejo problemas em uma pessoa ver o trabalho e pensar “Ah, ela está falando sobre a sexualidade da mulher, então isso é um trabalho feminista.” É. É um trabalho feminista. A partir do momento em que tem que ser feminista para falar da sexualidade feminina, acho que então tudo bem, né? (Risos)
O que é muito engraçado, né? Parece que a sexualidade da mulher tem sempre que ser impulsionada, ela não pode ser uma coisa natural.
Exato. Por que é muito bizarro isso das pessoas quererem colocar tudo em caixinhas, né? Já escutei isso “Nossa, você está fazendo um trabalho superfeminista.” Não. Estou fazendo um trabalho sem gênero algum, mas por eu ser mulher, é um trabalho feminista. Acho engraçado isso, na verdade.
Eu acho muito engraçado também, porque na verdade não fui eu quem defini meu trabalho como um trabalho feminista. Essas coisas foram chegando, até o momento que eu falei: bom, se o que estou falando tem que ser uma coisa feminista só porque eu, mulher, estou falando sobre isso, que na verdade, deveria ser falada independente disso, então tudo bem.
A descoberta sexual tem muito a ver com as imagens que você produz? Você sente que quando você descobre todas as camadas da sua sexualidade – sendo bissexual – seu trabalho vai aderindo a essas formas?
Sim, eu tenho um trabalho que fala sobre as mulheres LGBTQUIA+. Trabalho muito com isso, a sexualidade é uma coisa muito pulsante para mim, está bastante entrelaçada ao emocional e ao psicológico também, principalmente por uma questão de desconstrução.
Quando trabalhamos a sexualidade da mulher, isso automaticamente vira um grande tabu, e quando tratamos a sexualidade da mulher mais uma questão LGBTQUIA+, vira uma coisa totalmente transtornada para as pessoas.
O que é muito engraçado, né? Porque estão todos falando sobre questões LGBTQUIA+ o tempo inteiro, mas parece que uma coisa é você falar sobre isso e outra coisa é você atrelar a sexualidade à questão LBGTQUIA+. Parece que a sexualidade da mulher tem sempre que ser impulsionada, ela não pode ser uma coisa natural.
“Parece”, digo “não-pode”, falando sobre como não é socialmente aceito que isso seja algo natural.
Quando você estabelece um limite, coloca isso num trabalho, parece que as coisas mudam. Engraçado que, trabalhar a sexualidade – eu, como mulher, como mulher bissexual –, falar da sexualidade num trabalho é uma coisa que muda completamente o foco do trabalho para as pessoas, aparentemente.
Não pode ser uma única coisa, uma junção, trabalhar o corpo, trabalhar a mente, trabalhar a sexualidade. Sendo que a sexualidade vem do corpo e da mente, assim como qualquer outro sentimento, qualquer outra coisa. As pessoas tentam desatrelar isso do meu trabalho completamente, já percebi algumas vezes. Ver uma imagem que é sexual, ou figurativamente sexual e tentar desatrelar aquilo.
Já vi pessoas que viram desenhos meus de mulheres se masturbando e falaram “Ah, mas porque ela está assim? Ela está triste?”, como algo que tentam enxergar como desculpa porque não querem admitir que a mulher tem sexualidade, sabe?
Sim, parece que as imagens assim são muito fortes para as pessoas, elas estão tão acostumadas com não aceitar aquilo e tratar aquilo como um tabu, que quando existe uma imagem explicita, de fato, elas nem querem ver. (Risos) A sociedade está num buraco.
Temos isso desde sempre, temos imagens de corpos nus desde o renascimento. É muito inconveniente como as pessoas conseguem enxergar o nu na arte de uma forma completamente diferente do que elas veem num quadro renascentista. E hoje em dia, se elas virem um corpo nu na arte, se torna uma divergência, vai para a putaria.
Escutamos muito sobre feminismo e amor próprio e como criar esses conceitos de se amar, mas ninguém nunca parou para falar: “Oi, tudo bom, ó estão aqui os cinco passos do amor próprio.” Como que a gente faz isso no dia-a-dia? E não vamos fazer isso tão cedo, porque também temos estrutura familiar, uma série de questões.
Como você relaciona esse tratamento que a sociedade dá para parte sexual feminina na construção do símbolo? Quando você passa a construir esse símbolo, feminino, necessariamente está atrelado a essa construção do prazer? Os símbolos falam diretamente sobre isso?
Quando falo sobre o símbolo do feminino, sinto que é muita luta e muita força. Quando eu pego esse símbolo feminino de força e penso na relação da sexualidade, vejo que existe o entrelaçamento. Na verdade, essas descobertas que estamos alcançando, lugar de fala, empoderamento de falar sobre isso – está acontecendo junto com o crescimento do símbolo do feminino. Nesse caso as coisas estão atreladas, vejo que crescemos em uma sociedade que não permite que falemos coisas, principalmente em relação à sexualidade.
A partir do momento em que colocamos isso num lugar explicito, a simbologia do feminino aparece, tem muito uma relação de autoconhecimento. Sinto que a mulher não foi ensinada a se autoconhecer. Então ela é quase uma caixinha. Criada para ser uma grande caixinha de amor: “Você: vai lá, espalhe amor para as pessoas, cuide das pessoas”, mas você não faz a menor ideia do que está acontecendo com você mesma, ninguém te ensinou.
Escutamos muito sobre feminismo e amor próprio e como criar esses conceitos de se amar, mas ninguém nunca parou para falar: “Oi, tudo bom, ó estão aqui os cinco passos do amor próprio.” Como que a gente faz isso no dia-a-dia? E não vamos fazer isso tão cedo, porque também temos estrutura familiar, uma série de questões.
A sexualidade feminina vai desde as coisas mais básicas: você está num rolê e você vai beijar uma pessoa. Você não gostou do beijo, ou você não gostou do toque e parece ser muito ofensivo falar para a pessoa “Olha, faz de outra forma, que é melhor.”
Quando você encontra esse lugar de fala e você descobre que pode fazer isso, que você deve fazer isso, está completamente entrelaçado com a figura feminina das mulheres contemporâneas que a gente tem hoje em dia. Isso tem que se espalhar porque é algo muito bom: Não somos caixinha de amor. Temos que aprender, também, a estar nesse lugar do “Não, pera lá, eu não estou aqui para cuidar de uma pessoa o tempo inteiro, eu tenho minha vida, eu tenho minha sexualidade, eu tenho um órgão dentro de mim que foi feito só para o prazer.”
É, falta muita educação para a galera... Ontem eu assisti Curiosa (Lou Jeunet, 2019), e logo no começo, a personagem da Marie de Heredia fala assim: “Nós não somos mulheres, somos casas à venda.”
Num dado momento da vida, ela descobre o prazer de uma outra forma, que não é a comumente ensinada, e sinto que isso representa muito bem essa ascensão da sexualidade como o desprendimento daquele pensamento que fala que “a mulher foi feita para sofrer eternamente”. Felizmente não é bem assim...
Você falou do prazer, mas você usou a palavra “prazer” – automaticamente associamos isso com o sexual. O que é o prazer?
Se formos parar para pensar em como as coisas foram construídas, a mulher não tem direito ao prazer, mas isso não necessariamente só a questão sexual. Ela não tem o direito de sentir o prazer consigo mesma. Ela não pode estar solteira, não pode estar sozinha, independente do prazer que sinta nisso.
Não é nem só uma questão da sexualidade feminina, é uma questão que envolve toda essa questão sobre o prazer, né? Não temos o direito de sentir prazer em uma coisa que não seja estabelecida socialmente como “certa”. Isso é muito esquisito (Risos)
É, porque pouco se fala sobre o prazer, as pessoas não sabem o que é isso. Escrevi uma monografia há pouco tempo que fala disso: Qual é o problema de falar de prazer? O prazer está literalmente associado ao sexual, e não a você reparar a chuva e sentir as gotas caindo... Isso também é prazer.
O problema de se falar de prazer é este: é que as pessoas vinculam o prazer com uma questão completamente sexual, como se fosse só isso mesmo. Não que não seja também – isso também tem que ser falado – mas é preciso desvincular essa visão de que o prazer é “sujo”, porque isso acaba envolvendo todos os tipos de prazeres que estamos sendo limitadas de sentir.
Ah, então, pensando nisso, agora – foi uma coisa que me ocorreu –: quando você faz arte, você sente prazer, e isso é o que atrela o prazer à sua produção?
Sim! Eu gosto muito do que eu faço. Uma das ligações mais fortes que tenho com o prazer no meu trabalho, é que me faz pensar muito, tenho muito prazer em pensar. Em me rever – fui descobrindo que me ajuda muito a pensar no tipo de pessoa que eu sou, e no tipo de pessoa que eu quero ser. Esse vínculo com o meu trabalho que além de me dar prazer, me ajuda também a entrar em outras pessoas, quando elas vão ver esse trabalho.
Você também fala bastante da dualidade que existe na cor vermelha no marketing: no batom vermelho, esmalte vermelho...
É! Temos aquela ideia de que “ah, preciso me cuidar, então vou passar uma argila na cara, vou pintar o cabelo...”, sim, isso é se cuidar, é muito bom, ajuda na autoestima das mulheres. Mas não é SÓ isso. Aliás, isso é “de menos”.
A diferença não é ruim, sabe? Óbvio, vivemos num mundo capitalista, então muitas coisas vão seguindo esse caminho. É a mesma coisa falarmos sobre como é lindo ser vegano. Sabemos que os supermercados e marcas estão fazendo comidas veganas só para vender, não porque eles se importam. Usar batom vermelho também tem esses dois lados. A dualidade da cor é uma coisa que me pega muito. Eu adoro isso, inclusive dentro do próprio marketing:
Temos o lado capitalista que está tentando vender – transformar você em uma mulher feminista por pura obrigação, porque ele precisa te vender; e ao mesmo tempo, temos o lado empoderado das mulheres que estão usando maquiagem porque elas querem – até aquelas que usam o batom porque alguém falou que é “coisa de puta” e vai pela afronta. Essas dualidades existem inclusive nesses momentos em que a coisa está sendo desconstruída toda errada. Isso é uma loucura.
A relação do cosmético vermelho existe desde o Egito antigo. As mulheres usavam o vermelho ocre para passar nas bochechas e na boca, para ficar avermelhado. Depois se tornou isso de “ah, batom vermelho é de puta”, aí depois virou um símbolo de empoderamento, de novo.
Essas coisas vão para uma margem que parece desconexa, né?
Quando vemos uma imagem, ou uma cor – até dentro de filmes – sempre nos deparamos com a dualidade de nós mesmas. Aquilo vai ser transmitido para a gente, mas somos nós quem vamos associar o que aquilo significa, a partir do que estamos sentindo.
Sua poética é lindíssima. Aprendi muito lendo seu artigo de conclusão de curso. Eu me esqueci da dualidade do vermelho, - amor e guerra - até ler ali. Somos (mulheres) dualidades infinitas.
Quando as pessoas veem o vermelho, elas sabem do significado – é uma cor muito potente – psicologicamente associamos a cor muito rápido. Mas sinto que elas esquecem de associar essa cor às imagens que são colocadas.
A maioria das pessoas que veem meu trabalho, sacam muito rápido a poética sobre o feminino, sobre o feminista, ou sobre a luta, mas elas não conseguem vincular, necessariamente, a cor a isso.
Sempre deve ser um processo cuidadoso para ver as imagens, para ver os trabalhos. Se for uma coisa que passa batido, a pessoa pode pensar: "Mas, espera, por que o vermelho?" – isso é legal, também, porque gera uma dúvida que faz as pessoas pensarem um pouco porque a cor está ali.
Sim! Se formos parar para analisar psicologicamente, a paixão tem tudo a ver com a guerra, né?
Claro. A dualidade da cor, na verdade, tem tudo a ver com a dualidade da gente, a nossa dualidade psicológica, emocional.
Quando vemos uma imagem, ou uma cor – até dentro de filmes – sempre nos deparamos com a dualidade de nós mesmas. Aquilo vai ser transmitido para a gente, mas somos nós quem vamos associar o que aquilo significa, a partir do que estamos sentindo.
Quando uso uma cor que já tem essas dualidades automáticas, é muito mais interessante porque o espectador sempre acaba transmitindo o que está sentindo para o trabalho. Eu acho isso muito legal.

Isso reflete até na sua imagem, inclusive, seu cabelo vermelho, o batom, agora estava pensando. (Risos)
Sim (Risos), as pessoas têm referências das coisas, também é uma coisa sem querer. Isso faz parte da minha personalidade. Sem querer acabamos nos envolvendo tanto com algumas poéticas, e acreditamos tanto nelas, que também vamos nos tornando aquilo. Não é só a poética que vai se tornando parte da gente, nós também vamos nos tornando parte dela, meio que se montando através disso.
Exatamente. Sinto isso também: não consigo me distanciar da minha poética. A partir do momento que eu estabeleci uma poética, eu sinto que minha vida inteira começou a andar dessa forma.
É, vamos criando pontos de referências, né? Em nós mesmas, através do nosso trabalho, ou vice-versa.
E é importante também. Você também fala muito das questões da psicologia, né? Quando lidamos com esse assunto, acabamos pesquisando muita coisa e isso tudo ressoa na gente como pontos de apoio. Vamos estabelecendo automaticamente nossa vida a partir desses pontos: parar para pensar como sua cabeça funciona, como o seu emocional funciona.
Quem trabalha muito com essas questões psicológicas, acaba sendo influenciado muito na sua vida pessoal, né?
As pessoas estão se sentindo mal, porque sem ter o que fazer, vão lá e se masturbam. Maravilhoso! Ótimo! Muito bom!
É o que falo: não somos ensinadas a fazer esse tipo de coisa, né? Somos ensinadas a fazer qualquer coisa, menos isso.
A renovação do símbolo é constante, é interessante notar como a nossa sociedade caminha para construção e desconstrução simultânea desses símbolos.
Sim, estamos passando por um momento político horroroso, então quem tem uma posição política mais palpável consegue ver plenamente o quanto o mundo também é inconstante, no sentido dos retrocessos. Vamos para lugares incríveis e depois, voltamos tudo.
Claramente isso afeta como as coisas vão sendo construídas para as minorias, pelas categorias de gênero, para as pessoas que são marginalizadas, para as pessoas que são LGBTQIA+s, pessoas pretas. Somos afetados de tal forma que parece que estamos sempre lutando um pouco mais por alguma coisa que já tínhamos lutado antes.
É uma luta infinita. Sempre que achamos que demos conta, vem alguém para puxar para o outro lado.
É, exatamente por isso. Tenho visto páginas sobre a sexualidade da mulher falando sobre essa desconstrução da masturbação feminina. As mulheres estão em casa, e estão se masturbando. Elas estão enlouquecendo porque elas estão se masturbando. Eu li aquilo e fiquei “O quê? Como assim?”
As pessoas estão se sentindo mal, porque sem ter o que fazer, vão lá e se masturbam. Maravilhoso! Ótimo! Muito bom!
É o que falo: não somos ensinadas a fazer esse tipo de coisa, né? Somos ensinadas a fazer qualquer coisa, menos isso.
Ensinadas a esperar que a sexualidade seja ativada por um outro corpo, não pelo nosso próprio.
Caixinhas de amor.
Se preocupe o quanto o homem está sentindo prazer, agora se ele errar num lugar ou em outro, ah, aí você finge? (Risos) Isso é loucura. (Risos)
Não temos essa oportunidade, esse ensino. Escutamos, de feministas inclusive, sobre como temos que nos cuidar, nos conhecer, que temos que saber ficar sozinhas, e não sei o quê. Mas ninguém nunca ensina a gente a fazer isso. As pessoas não chegam para você e falam: “Olha, acho que você tem que se cuidar, e para se cuidar, você pode fazer X coisa. Você, para se conhecer, pode fazer Y.”
As pessoas não fazem isso. Falam para as mulheres “Você tem que ser forte.”, mas você não sabe como ser, você não foi ensinada que para você ser forte, você precisa se conhecer.
Essa é justamente a importância de abrir diálogos e começar esse movimento. Falo por mim, às vezes tenho que conversar com minha mãe – que é uma mulher formada, muito mais velha do que eu, só que não tem nenhum senso de autocuidado — De coisas até banais, tipo: “Nossa, vou ver meu namorado e tenho que passar maquiagem, que saco.”, sendo que quando eu era mais nova ela sempre me dizia que era uma coisa desimportante. E agora, ela se vê numa obrigação para agradar o outro, só que aquilo faz mal para ela e ela não consegue ver como violência. Porque é uma violência sucumbir à vontade do outro e colocar a sua em segundo lugar é muito doloroso.
É, você se anula. Aos pouquinhos você vai deixando literalmente de existir. Até o momento em que você seja obrigada a ficar sozinha e pensa: “Agora estou comigo e eu nem sei quem é essa pessoa.”
Vamos criando essas questões psíquicas em nós mesmas. As mulheres têm uma tendência muito maior a entrarem em depressão. E tudo isso vem daí. Somos ensinadas a sermos fortes, sem ninguém falar “como”, e quando estamos tentando nos conhecer, as pessoas não deixam. Porque, aparentemente, é triste você estar sozinha, se conhecendo.
Na verdade, é muito mais um problema das pessoas, do que nosso.
É, esses assuntos são densos. Dar a cara à tapa para falar sobre isso já é um símbolo de muita força. E você faz isso lindamente.
Todas nós.
Você está me escutando, eu estou te escutando, somos mulheres e somos pessoas. Sinto que é algo que todo mundo deveria fazer.
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