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"Nossa Sylvia Plath", Caio F. sobre Ana C.

  • Foto do escritor: Giovana Proença
    Giovana Proença
  • 16 de jul. de 2020
  • 3 min de leitura

\\ ENTRELINHAS

“Nossa Sylvia Plath’, alcunha Caio. Impossível não relacionar o emparedamento de Ana C. à redoma de vidro da escritora americana. Muros invisíveis cercavam duas grandes potências poéticas. 

Por Giovana Proença



Montagem: Giovana Proença.

A melancolia chama Caio Fernando Abreu no mesmo tom que ele a acolhe em seus escritos. Em uma de suas facetas mais ocultas - o que facilmente ocorre com autores que demonstram a versatilidade de se destacar e fugir de rótulos de um gênero literário único - Caio foi um dos maiores cronistas da geração de 80 e 90, sucessoras do frenesi do conto brasileiro. Uma pessoalidade à moda visceral de Abreu perpassa as publicações no Estado de São Paulo, em conjunto com as experiências biográficas transfiguradas na vida ao rés do chão, como chamou Antonio Candido a crônica em sua essência. 

Era frequente para Caio dedicar seus contos aos amigos, vivos ou mortos, mas uma amiga recebeu atenção especial: Ana C. Ana Cristina Cesar e seus lendário óculos escuros, ocultos os olhos azuis. Caio e Ana C. compartilharam muitas marcas: sabiam beber da tradição e renovar a fonte, romperam padrões na prosa e na poesia, respectivamente. Interlocutora e amiga – assinalou ele na contracapa de A teus pés. Capa e contracapa, Ana C. e Caio F. ocuparam postos privilegiados dentro da contracultura brasileira. 

Cada um à sua maneira, Caio e Ana vestiram a pele da personagem à margem. Os espaços alternativos, a noite e o olhar do estranho, eram captados pelas hábeis lentes de duas vozes da nova literatura brasileira, que deixava pra trás ares de seu Modernismo pulsante. Sabiam olhar no espelho em busca, e devolver um reflexo noir, o lado B de uma sociedade que procurava espaços libertários em meio a repressão que transitava. 

De Caio, Ana ganhou um escrito. Em “Por aquelas escadas subiu feito uma diva”, mais confessa do que narra sua relação com a poeta carioca; foi amor a primeira vista. Significativo, conheceram-se em uma redação. Trocaram cartas e telefones – quer maior intimidade? Sem censuras, ele é a voz da depressão que calou Ana C., “me sentia emparedada”, reproduz o sentimento da amiga. “Nossa Sylvia Plath’, alcunha Caio. Impossível não relacionar o emparedamento de Ana C. à Redoma de Vidro da escritora americana. Muros invisíveis cercavam duas grandes potências poéticas. 

Mais do que o abismo, Ana e Sylvia dividiram o grande dever que é a poeticidade. Marcos literários cravados em papéis avulsos. Duas poetas que ousaram ser, e repetir que eram. O lírico multifacetado em sua expressão mais elevada. Ambas desde a tenra infância recitavam os primeiros versos. O literário era dever, vocação, chamamento. Imagens que surgem, evocadas pela maestria dos versos. Lírico e narrativo em duelo. Associações inusitadas que estonteiam até mesmo os leitores mais corajosos. 

O máximo do reflexo: Ana Cristina Cesar foi tradutora de Sylvia Plath para o português. A Redoma de Vidro reflete o olhar. Versos se mesclam, olhares se fundem. Dois eu líricos femininos, expoentes de um eco poético que reverbera para além das redomas e abismos. Presentes em seus escritos esparsos, convite para uma espiada - páginas de diários e correspondências; e nas leituras de seus instantes capturados. Não há dúvidas, são lendas, míticas, envoltas de seus mistérios que continuam a fascinar seus adeptos. Transfigurando – e traindo – a poesia da autora norte-americana; Ana C. foi Ana C; a nossa Sylvia Plath. 

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