Minhas últimas
- André Vieira
- 15 de jun. de 2020
- 4 min de leitura
\\ CRÔNICAS
É possível ter novidades na eterna quarentena? Vem comigo.
Por André Vieira
Portrait of a postman/ Alex buchanan
A visão desfocada denunciava o óbvio: tinha que acordar, mas tinha sono. Na matinê insone de ontem os mesmos problemas de sempre: notícias falsas, paladar desaprazível, bexiga curta e água, muita água. Fazia tempo que o rio passava por aquela ponte, e mesmo assim o sentimento era que corria pelo corpo inteiro; principalmente pelos dedos que tocavam o teclado e fingiam que contavam uma grande história ou regurgitavam alguma notícia importante, digna de cinco minutos de distração da tela, da mãe, do cachorro, da chaminé que carborizava o ar com chegada do inverno. Todos, inclusive o português que contrabandeava álcool gel no bar, tinham muito a dizer ou algo a refletir: já eu, não; escrevo páginas de hoje com os livros de ontem e aviso, de pronto, que sou um péssimo copista...
Nas mãos ensandecidas pela tinta e os dedos hirtos pelos reflexos esparsos, um sonho: olhar pra rua e se imaginar menos. Menos intuitivo, menos criativo, menos atrevido, menos destrutivo. Da positividade só restava o lado A da pilha que teimava de cair do controle remoto e fundava incursões ao além-lençóis. De volta da mina, uma pringles esquecida, uma meia encontrada, duas aranhas de grama armando a armadilha; moscas e restos não seriam páreo pra tal inovação da tecnologia aracnídea, nem pro olheirudo que teimava em botar mau-olhada no ninho e se achar estranho: familiaridade é, às vezes, um dos piores sentimentos a se cultivar consigo, mesmo entre caninos e pulgas, sobretudo quando o amigão vive sempre feliz com sua companhia.
Doce ilusão. No buquê servido diuturnamente, vinte e quatro por sete, quatro por quatro, doze por trezentos e trinta e seis (menos um três quartos), a esperança era enganar a morte e espantar o tédio; olhar-se todos os dias e enxergar com os dedos e com os sorrisos plásticos de estranhos familiares: espelhos modernos. Dispositivos fantásticos, equipamentos indispensáveis, extensões de um narciso que ainda habita o lado de lá, mas que a alma foi aprisionada há tempos no além-mundos. Mordaças coletivas ou megafones de vozes silenciadas? Aonde meu dízimo, minha dúzia, meu décimo terceiro se encaixam na fisiologia de governo e nas superestruturas das estruturas públicas? Democracia é um jogo a ser jogado.
Na tevê, no pavê, no bidê. Ritmo circular pra ser bem informado nos dias de hoje, sobretudo, se se defeca pela boca a cada novo despronunciamento de desgovernamento. Fibroso, hígido, natural. É mesmo possível exigirmos algo de diferente a um boçal? Contencioso, espúrio, melindroso. Afinal, ato político é aquele que reivindica algo em nome de alguém e quando a família entra no meio, meu amigo: só o Congresso, o Supremo, e tudo mais pra estancar a sangria e evitar a pátria agonizar em Praça-Pública, chorando por aqueles que não têm nome. E por falar em nomes: se bem me lembro, o noir (perguntem ao Monsieur – MÊSIÊ - De Chocolá) nunca pegou muito bem em telas brasileiras, sobretudo quando o branco se mostrou mais em voga na Praça Mauá e nos confins do Anhangabaú. Mas rezam as lendas que em Catequeses já se fez bom cinema: acho que a opinião de um ex-mecanismo vestibulando e a inteligência do pipoqueiro da praça saberiam desvendar este mosaico, no limite.
Já pro pecê, pro ateliê, pro pessoal da nite louco de emedê, o elã foge do ecrã, a vida dissolve a (dis)simulação e pede por mais representação: mais sintéticos, mais processados, mais pinturas a óleo em quadros, fotos e retratos pelados....E saudades de época em que éramos inocentes da inocência. Pois é, sabíamos o que era ser feliz antes de dar nome à felicidade ou, pelo menos, antes ter evocado que ela existia: prosa, ficção, relato, biografia, poesia? O que é realmente que nos engravida de alegria? Saber que estamos certos ou mostrar aos outros que somos cultos, graciosos, dotados da razão? Só louco pra entender o enigma da esfinge pós-pós-moderna, que de tão desconstruída vive em ruínas à espera da restauração, em que velhacos tombam a torre de marfim e a tornam Babel. Bebelde. Só louco pra achar que a vanguarda precisaria se explicar ou dar nota fiscal com cê-pê-éfe: pega a visão, meu irmão.
Do lado de lá da ponte, vou bem. Na batalha árdua consigo mesmo algumas conquistas, vários debacles, um sentimento mundano que extirpa a carne quando vertem o laranja, o azul e o amarelo no celeste: o que é o amor? Com a língua recordamos quem somos, mas com a boca esquecemos quem seremos: os sonhos de ontem são as motivações de hoje? No leitmotiv carnal, o movimento dos quadris, das pernas, dos braços e dos beiços é foco narrativo pra entender o que não cabe em pronunciamentos ou manifestos, declarações ou gestos: na vanguarda, um coração remendado pela dialética do amar – passagens – excertos – desertos – miragens. Na retaguarda, a certeza que um dia seremos felizes a despeito de nós mesmos.
Fé é um negócio complicado pra quem reza a cartilha do progresso. Principalmente quando se colhe uma maçã mais verde de um senhor mais iluminado. Ora, se até São João virou virtual, o que impediria formamos, nós mesmos, nosso templo virtual? Na nova vaga brasileira, só os barbados e as princesas entendidos com o rei, a lei e o gameplay. A esperança nasce da sedução da desinformação, do gabinete das fake’, e do beato dum santo salvador. Pelamor. Nunca se desejou tanto ser analfabeto funcional em território nacional e internacional.
Um web-beijo
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