Meu amigo hang loose
- Matheus Lopes Quirino
- 24 de ago. de 2019
- 5 min de leitura
Atualizado: 9 de abr. de 2020
\\ ENTREVERES
Coach quântico, empreendedor, good vibes e maconhista, esse é o Theodoro, um cara hang loose!
Por Matheus Lopes Quirino
Não faz muito tempo que o Theodoro transformou sua casa em uma hospedaria. Alugou os dois vagos quartos através do Airbnb. Como anunciante, o jovem de 24 anos da Vila Madalena mandou bem. “Casa arejada com boas energias, banheiro privativo (e com água quente e bidê, ali é tudo vintage, diz ele ), wifi, café da manhã orgânico e vegano; perto do metrô”. Nessas semanas que correm o período de férias, cometi o pio engano de chama-lo de “pensioneiro”, ele rebateu o cronista alegando ser um empreendedor, mas um empreendedor do bem.
A pensão do Theodoro deu certo. Ainda hoje aquela casa vive na agitação, um entra e sai de gente de todas as fisionomias, credos, sotaques e nacionalidades. Para o Theodoro, não é problema algum. Falante de cinco línguas, ele, que foi um aluno não tão dedicado, mas esperto, do colégio Santa Cruz se resolve. O Theodoro confessa ter trabalhado duro para chegar à ideia da pensão – que, para ele, um menino cool, não é pensão, é hostel – precisou ralar muito.
Não basta ter o Macbook adesivado com logos do Planet Hemp ou do URSS, a casa, as vagas, a permissão da Mãe – Vera, uma artista plástica de renome no jet-set paulistano, professora de artes da PUC e ex-cantora. Theodoro sempre se lamuriou de como as coisas são difíceis, debatia-se em vão, na rede trazida de Pernambuco, ou no sofá cama em que dorme. “Só queria star (*) morta”, twita. Ele lembra de seu emprego mais duradouro, o puxadíssimo – não tenham dúvida – trabalho como monitor no Magic Kingdon, na Disneylândia.
Formado em administração pela Faap, Theodoro tinha o sonho de fazer o curso na USP, o que não foi possível devido ao vil vestibular da FUVEST. Prestou outras coisas também, passou na risca em uma faculdade em Roraima, ficou tentado em partir para a nova aventura. Roraima combinaria com seu visual, pensava ele, seus dreads louros, camisetas do greenpeace, botas de fazer caminhadas longas no deserto – compradas durante uma viagem familiar ao Cairo, anos antes.
Sobretudo, pensava em ajudar os refugiados fazendo origamis com papel reciclado para reavivar a substância poética que há na desgraça. Theodoro também acha que é poeta, e dos bons, por isso produz uma poesia de primeiríssima qualidade, garante sua mãe. Segundo ele, sua vida é cheia de desgraças, para começar, pelo fato do estado de direito estar desgovernado e cercear sua liberdade com base nosooeknckjenjfnjcnefncjnjrknc. E ninguém mais entende o que ele diz. Nem seus Brothers da filosofia da USP, ou a galera de Sociais da PUC.
Antes da pensão surgir, Theodoro, para ganhar a vida de recém-formado desempregado, resolveu fazer um curso perto de sua casa para se tornar um coach quântico. Naquela época, 2017, ninguém sabia o que era isso. O curso foi caríssimo. Rachado pelos dois pais; em três meses Theodoro já era um terapeuta, um profissional, um médico das almas.
Fixou consultório no antigo quartinho da empregada de sua casa. Reformou-o, deu novos ares para aquele ambiente um tanto lúgubre. Agora a família só tinha diarista três vezes por semana. O período de terapeuta durou pouco, os clientes, todos do bairro ou redondezas, um a um foram dando calotes no pobre do Theodoro. Ele entrou em crise existencial. A coisa foi feia.
Resolveu ir meditar todos os dias na praça do Pôr-do-sol para encontrar sua paz interior. Passou semanas na casa da família no Guarujá, refletindo. Fez curso de ortomolecular, chacras, leu o best-seller do New York Times, em tradução deste autor, “Como equilibrar suas energias em frequências diárias? ”. As coisas, finalmente, puseram-se a andar. Daí foi um passo para ele fazer um coque samurai com a longa cabeleira loura, tentar aprender falar hindu, pintar-se todo em sessões de terapia energética, sendo o Theodoro objeto (humano!) de uma das exposições em que sua mãe foi curadora em uma galeria de arte nos Jardins.
Theodoro é um sujeito gente fina. Hoje em dia ainda mais largadão do que sempre foi, não é difícil encontra-lo na calçada do bar Mercearia São Pedro, fumando um paieiro ou erva, tomando uma IPA com os amigos do colegial, todos moradores do bairro – e arredores. Em quarta-feira, dia de jogo, excepcionalmente, ele troca a IPA pelo litrão “Aqui é Corinthians, caralho! ”.
Vi o Theodoro pela última vez na Praça do Instituto Moreira Salles, ele estava como sempre de bermuda dois números maior, tênis Nike todo espandongado, usava uma camisa feita por um coletivo de jovens de esquerda da vila Madalena #Lulalivre. Falando manso, sempre com os olhos em formato de lua, sorriso reluzente, é difícil não ficar cativado pelo Theodoro, sua presença, brincamos, é transcendental!
“E aí mano, beleza? Meu, quanto tempo! Pô, cê não sabe, meu, virei empreendedor, meu, tô ganhando a maior grana, meu”, disse-me entusiasmadíssimo o Theodoro, enquanto pagava, no crédito, seu ingresso de oito reais, ele é cliente Itaú Personalité. Fomos tomar um café no Balaio e ele me deu o panorama de sua vida.
Tinha saído de um relacionamento aberto “Quando vi, meu, tava já aberto de mais, mano, tipo, bem aberto, tá ligado?”. Recém-saído da desilusão, a ex-namorada voltou para Cabo Frio, de lá para o Leblon. Theodoro teve duas recaídas, comprou passagem de ônibus e tentou voltar com a Ana Maria. Não rolou, lá no Rio ele caiu na gafieira, voltou a São Paulo sem celular, de pochete, com insolação e cartão de crédito estourado.
Lá ele conheceu esse negócio de Airbnb. Ficou hospedado na casa da Sandrinha, uma ex-monja que vive no Catete, blogueira do UOL, fala sobre terapia holística. Eles ficaram tão amigos que o Theodoro cogitou um relacionamento à distância, mas só pensou. “Nem por mensagem tive coragem de falar”.
Goodvibes, a marca do Theodoro é o Hang Loose. Faz uma semana que ele resolveu embarcar em um trisal (um relacionamento de três pessoas) com dois rapazes, um de Higienópolis e outro do Ipiranga. “É fogo, ar e água”, brinca o Theodoro, sendo ele água, do signo de Escorpião, e os outros dois são aquariano e sagitariano.
Theodoro não parava mais de falar de sua vida, e como sua trajetória incrível daria um ótimo livro de memórias, do qual seria eu o Ghost-writter. “Amigo é pra essas coisas, né?”. Caminhando para a despedida, ele me indicou um livro “fodástico” da Djamila Ribeiro, sobre como o racismo é foda, resumiu-me o livro, e, às vezes, ele tem vergonha de ser branco.
Theodoro me deu dois beijos no rosto, como carioca fake que é – ele diz –, lamuriou-se pela Ana Maria e foi tomar seu rumo para o documentário sobre Woodstock. “Amanhã…”, disse ele, pausadamente, tentando lembra-se do que diria, “o dia será longo e cansativo, meu”. Iria para o coworking e depois ia pensar com o pai uma startup. Saindo de lá ia ver um Slam na Roosevelt, tomar umas brejas, fumar o cachimbo da paz, fazer hang loose.
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