\\ ALEXITIMIA Versão Digital do espetáculo Paranoia, por Teatro Oficina
Passeei por São Paulo na voz de Mercelo, carregada como que por ondas. E eram: sonoras, visuais e corpóreas. As imagens na tela, você pode escolher.
Por Lia Petrelli
Dia 17 de julho fui consumida por uma curiosidade incendiadora: Marcelo Drummond vai apresentar Paranoia em formato online. Paranoia é o livro mais conhecido do poeta paulistano Roberto Piva, e Marcelo faz adaptação ao teatro desde 2011. Deixei que a ansiedade me consumisse a pele de dentro a fora até dia 23, quando finalmente, 19:05, a sala do Zoom foi trancafiada: os três sinais do teatro agora são minutos contados no relógio. Só pude experimentar.

Indicações no chat vinham de Kaëka Tchëka: liga a câmera, acena, manda beijinho, mostra o banheiro. A interação de sempre foi transposta pela possibilidade de carregar celular, computador, tablet. As indicações não eram de brigada de incêndio ou saída de emergência, mas para uma melhor visualização. A voz e imagem montada explicavam tim-tim por tim-tim e a interação do chat rolava solta: “como faz no computador, mesmo?”
Daí que Marcelo emerge na tela. NaS telaS. Quadro telas controladas por ele mesmo, enquanto tagarilava e descrevia as paisagens de Piva com potência. Duas delas eram Marcelo em ângulos diferentes. As outras duas eram imagens-composições de Cecília Lucchesi e Igor Marotti, referenciando Wesley Duke Lee, Cinema Marginal e soft-porn. E o som-arrebate é a trilha sonora de Zé Pi.
Deixei de pensar: chorei. Lembrei. Movi. Escrevi durante o processo-peça-sensação, mas só pude passar a botar em ordem agora.

Quase como se escrevesse mais uma vez influenciada pela experiência. Sem enfiar palavras difíceis em buracos indevidos, assim como se mostrou Piva na voz de Marcelo, totalmente dançante. O corpo inteiro que não quer parar, bem como São Paulo nos chama para a vida, esperando que algo de novo vá emergir. Realmente emerge. A sensação de estar dentro da experiencia por completo é magnificente. Estar viva para ver grandes sensações emergirem de corpos adormecidos, como eram até então.
O absoluto êxtase de se estar viva. Sobreviver. Ver acontecer de novo uma passagem dita revolucionária, silenciosamente revolucionária. Não sei onde li, ouvi, que teatro é a linguagem do agir, da ação. Vejo-me sugada para dentro do áudio-paisagem que se constrói no virtual. O puro alucinógeno de estar só, sentindo. Só sentindo. Tudo.

Minha cabeça pensa em frenesi. Todas as imagens que continuam reverberando, sentindo, apalpando. Como se o corpo simplesmente quisesse pensar e existir na arena.
A arena pega fogo no centro da evolução: o esquartejamento do novo normal.
Voltar lá para o passado de novelas radio-transmitidas. Criar paisagens imersivas: para dar vida ao que parece estar morto.
O corpo é consumido por imagens e sons que alteram o estado de presença. O realmente sentir poder. Poder sentir. Falar. Não durmo porque minha garganta fecha. Eu tenho medo de dormir porque a cabeça ferve e as ideias se vão. Mas não pode ser assim: como sempre, como sempre é. O corpo já sabe de tudo. Quando a coisa vai para o digital, para o digitar, as mãos já sabem o caminho.
O olho é na tela e não nas mãos. As mãos são treinadas e isso é uma experiência.
Como se treina entrar em ambientes? E visitar lugares sem precisar do corpo-matéria.
O corpo é várias coisas. A experiência estética se amarra com grandiosidade. Pensar justamente sobre o que vai acontecer. Uma explosão que menciona o passado porque nem tudo é tão diferente. Estávamos só mal-acostumados.
O corpo adormecido por todas as milhões de percepções possíveis se mexe. Não ter que caminhar até o espetáculo. Fazer do chão do quarto o palco fértil. Pensa: quantas pessoas que não conseguem ler um livro – é uma questão de atenção –, ou que não encontra conexão entre o som e a imagem. Um navio imenso de possibilidades, acoplada a saberes antigos, reformulados porque os modos de fazer cartazes mudaram. O modo de fazer produto, mudou.
Mudar a linguagem do corpo: perceber quietinho o despertar em nova fórmula, sentidos audíveis. Soa como novidade.
Porque é!
Milhões e milhões de pessoas nunca ouviram falar em Piva, nem em Antonin Artaud, nem no radiofone, muito menos na peça radiofônica. Lá de mil novecentos e quarenta e oito.
Tudo parece querer despertar. Sim! Despertar. Perseguir o público, abrir o público, o público abrir o teatro.
Pode ser que sejam mínimas as contribuições silenciosas, mas enxergo as mãos ativas de quem faz teatro, de quem age, como visíveis indicadores de futuro. Sim, porque o futuro é o presente e o passado também é o presente. Basta ler um livro. Basta ouvir as peças. Basta ver as peças. Basta mergulhar e deixar-se mergulhar, por completo. Misturar e ser misturada.
As individualidades peculiares de se entender. Cê sabe como você entende algo? E a poesia, onde que vibra?
É mesmo?
Em mim vibra no corpo. O corpo que acompanha o ritmo da fala inteira, cortada, atropelada, interpolada, sobreposta. Claro que o Teatro Oficina trabalha com os corpos não silenciados, mas mesmo assim! Mesmo assim ainda o sentar e ouvir, não vagar pelo espaço de outras mil paisagens, faz o adormecimento passar.
Agora já estou misturando a experiência da Paranoia, televisionada dentro de uma conferência do Zoom, com O Bailado do Deus Morto e pra dar um FIM NO JUÍZO de deus que toca na caixa de som: só dar play no Spotify.
O clique mental, sonoro, real, rendeu muita coisa. Mudou toda uma visão aprisionada pelo corpo-livre e ecoa pelos cantos do não-corpo-livre. Ser afetada pela tecnologia. Que maluquice perversa. Mal sabemos o que é a tecnologia, ou a diferença entre atualização, virtualização e técnica.
Sabe o que eu fazia sempre quando a “liberdade” era “real”?
Escrevia meus caminhos por São Paulo. Sim, tenho livros cheinhos de palavras legíveis, não-legíveis sobre o caminho do corpo, ora afetado pelo externo, ora pelo interno.
Escutando Marcelo disparar palavras aguçadas meu corpo teve ímpeto do caderno, minhas mãos tatearam cegas pelo espaço-quarto-palco-arena em que estava imersa e num impulso escreveram sem olhar para a folha – isso faço sempre também, afinal, perder tempo olhando para a folha de papel parece ser o estopim para minha atenção – meus olhos estão tão famintos quanto minhas mãos (assim como digito tudo sem precisar me orientar visualmente pelo teclado).
Passeei por São Paulo na voz de Mercelo, carregada como que por ondas. E eram: sonoras, visuais e corpóreas. As imagens na tela você, pode escolher. O foco é individual: quatro telas imersivas e o som! Ah, o som da madrugada e ainda bem que a noite está quente e pegar uma cerveja de um bar e vagar. Saudades das coisas que o corpo desprezava. Sim, porque o costume de todas as ações tira mesmo a novidade das coisas, se você percebe o adormecimento dos movimentos do corpo, é claro.
Ainda que romântica a visão entrou e passou feito faca afiadíssima: esse desespero de fazer o coração pular dentro do corpo e vibrar tudo: exatamente como acontece dentro do portão azul da Rua Jaceguai. Não mudou nada. Só a distância. E toda a potência de despertar as vívidas ações mais uma vez.
A destruição-construção das linguagens. Amarrar perfeitamente a narratividade das falas-textos com músicas que movem. É a língua que altera totalmente o comportamento de uma sociedade. O modo como o cérebro está acostumado a processar informação precisa mudar.
É sempre muito doloroso.
Mas, com a linguagem parece ser uma questão de orgulho.
Até porque, depois que vai, não acredito que volte.
***
FICHA TÉCNICA PARANOIA LIVE
texto: Roberto Piva
direção e atuação: Marcelo Drummond
trilha sonora: Zé Pi
piano: Chicão
videoarte e artes gráficas: Cecília Lucchesi e Igor Marotti
intervenção caligráfica: Sonia Ushiyama
abertura: Kaëka Tchëka
assessoria de luz: Luana Della Crist e Pedro Felizes
assessoria de som: Camila Fonseca
assessoria de imprensa: Vanessa Fusco
realização: Teatro Oficina Uzyna Uzona e Sympla
Proteja o Teatro Oficina: teatroficina.com
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