Espiral da Paz — Isabel Figueró Cruz
- André Vieira
- 1 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de jul. de 2020
\\ CRÔNICAS
Sümbül ELDEK;Touareg dans le désert 2020
Do varal da cozinha, sentia a brisa do deserto me preencher na manhã, ainda sonolenta e fria, que se desdobrava, junto as meias, calças, camisas e sapatos de corrida, que tínhamos exposto ao sol no dia anterior e nos arrependido amargamente quando a torrente dos céus — a primeira desta quarenta, em São Paulo — ensopou nossas aspirações de termos menos trabalho paraquela manhã de segunda-feira. Embora nunca tenha criado gosto pelo ajeitar da casa, e pelo organizar de cuecas, nunca me senti ofendido por passar manhã a fio lavando e organizando louça ou em esticar até mais tarde lendo um manual de instruções para montar cadeiras de cozinha.
Mas é encasulado que noto como o tempo de relógios, os diários de computadores e as xícaras de café de esquecidas no quarto — só hoje achei meia dúzia de canecas quebras e outra dúzia de copos perdidos — parecem dar sentido a quebra-cabeças do cotidiano. Bordados, contornados, adornados, quem sabe, costurados e entrelaçados, por um fio ínfimo, de linha invisível numa colcha branca, vazia e fria como o raiar de um dia, sem manchas ou defeitos aparentes no tecido, a não ser aqueles que nos lembramos que fizeram parte do caminho da agulha, ou que, por ventura, se desventuraram a terminar em nó ao fim do lençol.
No mosaico do prosaico, o estático inanimado de tolhas que se secam em cadeiras sem pernas e de camisas que se molham sobre bicicletas ergométricas, cabe à memória dizer porque alguns livros nos são tão queridos e inseparáveis e porque, ainda, não conseguimos nos desfazer da máquinas fotográficas antigas, calças jeans em farrapos, matérias de jornais amareladas e pequenos pen-drives antigos, corroídos pelo tempo dos homens e defasados pela corrida entre máquinas: todos, de alguma maneira, nos marcaram o RAM.
Desde o gibi bobo da Turma da Mônica em que Cebolinha conhece — finalmente, puta merda —, pegar o Sansão e escondê-lo da dentuça de vestidinho vermelho, até o primeiro Cê-dê ou éle-pê em mãos, principalmente se você tomou de seus pais ou “pegou emprestado” do titio e “por motivos desconhecidos” — admita: seu primeiro crime foi dançar Madona ou flutuar ao som de Zeca Pagodinho com um disco roubado —, e o mantém como lhe pertencesse, embora esteja acumulando poeira entre livros na estante abarrotada seja, hoje, impossível reproduzi-lo naquele toca-discos quebrado.
Mas o que nos marca, mesmo, é o primeiro registro fotográfico de um sorriso, sim, daquele amarelado decorado com restos de alfafa e folhas de alface. De alguém que você gosta antes da foto ser tirada o ou justamente, por conta da foto ter sido tirada passou a gostar e cair no riso bobo, na risada despretensiosa, toda vez quando estão os três ali, você, a pessoa que sorri pra você e o próprio sorriso. Congelados num momento em que sempre faz sol, o relógio marca pontualmente três horas, você se lembra das lições de álgebra que tivera mais cedo na aula e da conversa séria que acabara de ter com seu pai: sua mãe serviu a última formada de biscoitos.
Uma alegria contagiável, que como o quadro sobre sua estante, é visível aos olhos de quem passa ali, que pega as fotos nas mãos e curioso pergunta: “quem é?”. Você, sem graça, por não saber explicar a origem da sua felicidade ou o motivo de sua visível vergonha, que é logo interrompida pela chegada da lágrima furtiva, responde: “é alguém me pertencem. Como também o pertenço. Mas não como uma posse mesquinha ou um troféu pra ser exposto para outros: um faz parte da história do outro, embora eu nunca a tenha conhecido e, com certeza, ele nunca me conhecerá.
É talvez isso, esse sentimento furtivo que me assola quando corto cebolas ou varro a lavanderia, que sinta quando me apoio sobre a pedra quente da sacada, num fim de tarde de outono ou toque com delicadeza no estofado imundo do sofá da sala mal iluminada: sinto a eletricidade que emana de todas as pequenas lâmpadas que ornam e ornaram nossos varais; algumas luzinhas já se apagam, sim, mas outras, assim como sorrisos que darei ao voltar os olhos para foto, com certeza se acenderão.
Espiral da paz
Oferta discreta;
Das dunas duma comuna:
A guerra deserta.
Isabel Figueró Cruz
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