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Em trânsito

  • Foto do escritor: Tomás Fiore Negreiros
    Tomás Fiore Negreiros
  • 10 de dez. de 2019
  • 9 min de leitura

Atualizado: 8 de abr. de 2020

\\ CONTOS

A sobriedade e crueza daquela manhã de terça deu vazão a uma batalha monumental em pleno transporte público; na verdade, envolvendo transporte público e seus mais vulneráveis usuários...

Por Tomás Fiore Negreiros


Chalk Cliffs on Rügen, Caspar David Friedrich (1818)



Passos conscientes, movimentos calculados, joelhos arqueados regindo o inconstante equilíbrio. A frágil figura do velho colocava em questionamento a automatização do andar, mostrava que colocar-se em movimento não era algo tão simples naqueles tempos; que manter-se de pé era uma tarefa digna das grandes narrativas da espécie humana.


Passo, passo, passo, pasfreada, passo, passo, passo, pscurva, passo, passo, passo, passacelera.


Parecia não se assustar com os rugidos ensurdecedores daquela besta, com os urros produzidos pelo acelerar de seu motor modelo 96, com os gemidos agudos de suas juntas metálicas enferrujadas. Desafrontaviava a quimera de ferro e todo peso de seu deslocamento, batalhando por sua soberania frente às forças inergéticas.


A sobriedade e crueza daquela manhã de terça deu vazão a uma batalha monumental em pleno transporte público; na verdade, envolvendo transporte público e seus mais vulneráveis usuários... parecia não acreditar em meu próprio testemunho, mas era verdade: dois entes mitológicos digladiavam-se a algumas poltronas pichadas à minha frente.


A fera brandia enlouquecida, ansiando por ver o guerreiro estatelado no chão. Lançava todo seu repertório de golpes envolvendo freadas repentinas, curvas agudas e ultrapassagens extremas. O corpo do monstro-máquina saltava e contorcia-se diante da sinuosa linearidade dos eventos.


Em contrapartida, o guerreiro fazia tudo que podia para manter-se de pé, especialmente, para não ser arremessado pelo fluir incessante do porvir maquínico. Ora antes, ora depois, jogado de um lado para o outro pela fúria em aço.


Brotando da total aridez desértica daqueles tempos, a cena era um verdadeiro oásis aos meus olhos. Me banhava naquelas pequenas e sofridas gotículas de suor que escorriam pela testa do paladino, alcançando as rugas em torno das maçãs do rosto. Me enchia a vista as esféricas porções de vida que desenhavam um riacho quase seco pela sua face, onde a pouca água que restava se esgueirava pelas dobras e pregas da pedra gasta, pela experiência de 70, 75 invernos de vida. Matava minha sede naquele rosto-pedra que escancarava a precariedade daqueles tempos; expresso em pavor diante do desgaste calcário, da promessa de erosão trazida pelo vento, da possibilidade de autoesfacelar-se no encontro do dia com a noite.


Mirava, olhava, encarava aquele rosto pedregoso imerso na batalha, completamente impelido a degustar todos os seus detalhes, todos os seus traços, seus trejeitos, sua estranha cotidianidade... havia algum segredo guardado por aquela boina que, revestida de couro, protegia-lhe a rala cabeleira prateada e lhe servia de elmo de batalha.


Era um “sabe-se lá o que” que recaia na casa dos milésimos, nas pequenas tonalidades, nos mínimos detalhes negligenciados do dia-a-dia. Assobiava mudamente, destacando a frágil figura dos demais corpos ali presentes, trazendo uma sutil aura que emanava de seus ombros arqueados, de suas bochechas coradas, de seus faróis sujos e empoeirados... havia uma aura que revestia aquela pedra-cavaleiro-rosto e, coroada por aquela boina, exclamava por certa gentileza.


O suor derramado nas intermináveis disputas, a monstruosidade que era o transporte público, o constante risco de ser atropelado pelo vai e vem das placas, a indiferença estampada no rosto do sujeito sentado ao lado, a monotonia de cada dia... tudo parecia comum e estranho diante da figura do paladino aureado que desafiava o grande monstro de ferro.


O velho esforçava-se ao máximo para não cair no ritmo imposto pela máquina semiautomática e sua temporalidade desenfreada. Em pleno gesto de confiança, se agarrava com avidez nas barras enferrujadas dispostas dentro do veículo; com tanta força que era notável a rigidez dos flácidos músculos do braço, a tensão transmitida da nuca até as extremidades mais longínquas, o franzir de testa que convocava todas as rugas do rosto em sua direção.


Mas toda sua anatomia passaria por um delírio se não fosse pela expressão em seus olhos; ou melhor, a total ausência desta: as densas e gastas bolsas de suas pálpebras cobriam os globos oculares, poupando-lhes de testemunhar o que os demais membros viviam com tanta intensidade, possibilitando que flutuassem para outros tempos, para longe da loucura e insensatez cega da quimera.


Freadas, passos, empurrões, arrancadas de motores, buzinadas. Era um microcosmo caótico no qual ambos, velho e máquina, encontravam-se em cena, imersos em um mundo próprio, completamente alheios ao roncar das barrigas vazias das figuras na rua, e mais ainda ao barulho das pedras que eram arremessadas contra os vidros do veículo. Ignoravam todos, tudo, e a si mesmos...


* Bruscamente, o veículo interrompe sua alçada contínua e arremessa o transe onírico pelo imundo vidro frontal. Uma mulher bate o rosto no assento da frente e seu nariz sangra; uma criança chora diante da quase possibilidade de poder voar; a carcaça de uma outra besta arde em chamas sobre uma das faixas via intransponível.


Eternizar o combate era impossível, assim como amenizar os golpes do badalar das horas e da sequência de acontecimentos; evitar que o automóvel fosse consumido pela língua incandecente das chamas era impossível — eram todos: cavaleiro, fera, pedra, criança, carro, vítimas subjugadas pelo algoz invisível chamado Tempo.


Segurava-se nas barras na vã esperança de conter o movimento dos ponteiros; acelerava nas ruas fugindo do inquisidor de todas as horas, brecando quando alguma fresta de futuro o aterrorizava. O guerreiro caduco, a fera decadente, a pedra gasta, a criança chorona e o monstro combalido, enlutavam-se sobre si sob a sombra do verdadeiro inimigo. Não passava de uma mera fantasia, na qual cada um tentava, inutilmente, vingar-se do relógio algemado ao pulso ou do celular pulsante no bolso, por todos os anos roubados, toda aquela existência torturante. Como se a derrota do outro representasse um golpe nas forças absolutas do relógio.


Mas como já era amplamente sabido, a pretensão da fera-homem-pedra, era inútil. Tanto eles, quanto qualquer um dos presentes, viviam sob a sombra dos ponteiros; e assim também era a disputa, submetida a foice do vento: uma hora se haveria de ouvir seu silêncio. A batalha terminou, e consigo, levou embora a aura enigmática. Fiquei no escuro.

* Os pequenos botões de plástico que cobriam aquele grande bolso brilhavam humildemente; beliscando os meus olhos, inquietava-me gradativamente aquele grande mistério guardado nos domínios do arcabouço: uma espada? um mundo em outra dimensão de espaço e tempo? Outra aventura épica? Os segredos de uma religião perdida? O fantástico fármaco que nos anestesiaria da dureza daqueles tempos? .... — mas aquilo já era um sonho irreal, uma expectativa imaginária, destoante sequência árida dos fatos.


Retomando à esterilidade daquele dia, seus dedos desabotoaram lentamente o grande bolso, até revelar anêmicas folhas de jornal, carregando as notícias daquela data. Não parecia muito empolgado por ler o raiar das páginas cinzanubladas do periódico e aquilo que lhe prometia. Mas fazia questão de fazê-lo sentado: pelo menos poderia descansar as pernas enquanto recansava a vista..


Com movimentos cada vez mais sutis, afrontando a brusquidade das leis do transporte público, o ex-cavaleiro (aqueles já eram tempos distantes e esquecidos) ocupou-se da tarefa de encontrar um assento para fazer de sua morada, seu reduto, durante o trajeto. Como as grandes empreitadas da humanidade, precedentes àqueles tempos de total secura, a premonição do fim daquela pequena busca se deu pelo olhar: o semblante triunfou em glória quando avistou o banco vago.


Se sentou, acomodou-se, apropriou-se e faz daquele assento seu. Com suas mãos pedregosas e enrugadas, puxou o jornal de seu bolso fundo. Lambeu o lábio inferior, como se o umedece-se para falar algo; tossiu, limpou a garganta rouca e seca. Não era necessário falar, bastava que os calos magros e a finura de seus dedos enrugados dissessem: estes, sim, sussurravam histórias e feitos passados às folhas de jornal; enquanto aquelas berravam “MANCHETE, FOTO, COLUNA, ANÚNCIO”.


Seus olhos detinham-se sobre as notícias trazidas por aquela manhã de terça-feira. Mas, não raro, intercalava a leitura silenciosa com um bisbilhotar do assento ao lado, uma olhadela para a frente, um enrugar da testa quando alguma voz se exarcebava no ambiente. Ele via tudo...


Homens sentados sozinhos semblando a exautão de mais um dia de trabalho; jovens, esperançosos por amenizar o amargor no céu da boca, caçando até os confins de seus bolsos poucos trocados para comprar algum pedaço de doce na parada final; mulheres olhando para a janela e o mundo em busca de uma novidade que valesse ser levada para casa. Seus olhos e seus ouvidos não deixam nada passar pelo seu crivo altivo e refinado. Ele via tudo.


Logo, um pacote de biscoito de polvilho surgiu por entre as folhas do jornal, alterando o foco principal do observado-observador. A atenção de seus dedos-pinça era inteiramente dedicada aos novos companheiros empolvilhados; a explosão ávida daquela garra esfomeada em direção aos pequenos branquelos; o sadismo daquela mão áspera em sentir o enfarinhado nas suas dobras e entregar os coitados ao seu triste fim em uma boca adentada.


* Formava pequenos amontoados de massa branca e aguada na boca, desfilando o cimento albino entre os seus dentes. O jornal, evidenciando sua intimidade com os dedos ossudos, havia recebido bofetadas de pó branco em suas faces cinzentas. Meditava entre estes dois ofícios, em completo equilíbrio entre a boca que come e o olho que lê. Momentâneo.


Avistou um homem que surgiu pela porta automática na parte dianteira do veículo. A cabeça do sujeito quase roçava o teto do veículo, obrigando-o a maneirar seu distante acenar de braço para não batê-lo na cobertura. Suas largas passadas em direção do guerreiro aposentado denunciavam o desgaste da sua estrutura imponente de homem-torre. Não carregava aquela antiga aura sustentada pela debilitada coluna da figura sentada, mas ainda conservava certo brilhor em suas superfícies; a maresia ainda não havia consumido e inutilizado por completo seus pilares.


Cumprimentaram-se, de modo que todos os demais presentes pudessem testemunhar o encontro que ocorria ali. Velhos amigos, de gerações e tempos diferentes, mas ainda assim, velhos amigos. O mais novo expressou seu maneirado contentamento de encontrar com o outro; fazia anos, quiçá décadas, que não se encontravam... quando foi mesmo? Já nem lembravam, foi tanta coisa desde aqueles tempos, tantas quedas.


Talvez o esquecimento tenha os salvado da loucura. Uniforme sujo, com manchas de poeira oleosa em todo fronte, com as mangas dobradas e rasgos gastos nas extremidades e retalhos. Mal se percebia o tingimento azul escuro daquele macacão surrado, mas era notório como a peça ostentava o labor, o esforço. O macacão cansava-se a si mesmo no seu uso como medalha, não sustentava mais seus furos, nem mesmo aquilo que esbanjava...

Trocaram palavras, algumas saudosas, outras lamentações, mas na essência eram palavras; coisa rara naqueles dias. Atribuíram ao acaso o encontro em pleno transporte público - É talvez...


O silêncio alastrou-se por alguns instantes. Olhavam para o chão, para o teto, para a paisagem no entorno, para qualquer coisa que pudessem se agarrar pela vista...empreenderam mais uma tentativa, passaram a comentar sobre o passado, lembraram-se de seus tempos de antes — ahhhh antes, antes eram tempos melhores sem dúvida. Já, Aqueles, sim Aqueles, Aqueles eram tempos difíceis.


Bastava olhar no jornal, estava estampado na primeira página. Os dois homens eram encarados e julgados pelos olhos das palavras ali impressas; sentiam a pressão que a mudez das letras exercia sobre suas nucas que suavam e exprimiam-se. Mesmo o presente presente dos verbos ali presentre mostrava-se como um completo beco sem saída para qualquer fuga a qualquer tempo: estavam encurralados.


Tentaram conversar um pouco mais. O homem corpulento falou sobre seu trabalho, como era a vida nas fábricas, como aprendeu o manejo das máquinas; mas também lembrou-se de seu joelho fraturado, da inutilidade de um de seus dedos, de suas costas judiadas pelo oficio, da miopia cansativa que o impedia de ver a 2 palmos à frente .... Assim como todas as outras, a conversa já estava marcada pelo seu fim. A linguagem já se encontrava viciada, obrigando-os a rodar em círculos.


Trocaram mais um aperto de mãos, despediram-se. O homem-máquina deixa o ônibus. O velho-pedra retorna a sua meditação, devolve a atenção às palavras do jornal, revezando suas mãos entre uma “virada de páginas” e um “pegar biscoito de polvilhos”.


* O conto do ex-guerreiro contra a fera de ferro já havia caído em desuso, o paladino havia abandonado o elmo e penava para sustentar-se com a aposentadoria; o caso das auras enigmáticas fora solucionado pelos cientistas: a radiação emitida pelas usinas gerava aquele tipo de fenômeno; o fantástico bolso infinito e seus botões reluzentes foram retirados das prateleiras, aquele tipo de produto poderia falir a indústria da moda; o nostálgico passado do homem-pedra e do homem-torre-máquina já não constava mais nos anais da história, a psicologia já havia diagnosticado casos de reconstrução fantástica do passado traumático...

De sobressalto me vi de volta ao mesmo banco de plástico gasto e trincado que havia me entregue durante meu devaneio. Novamente os gritos abafados do motor 96 e o silencioso suspirar daqueles dentro do veículo se fez presente. Já não era apenas os vidros do ônibus que se faziam sujos: as tonalidades cinza empoeiradas contaminavam todo o ar sob meu campo de visão, assim como a todos, assim como a tudo; a vista já parece fatigada e falha.


De fato, eram tempos difíceis aqueles.

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