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A todo vapor

  • Foto do escritor: Matheus Lopes Quirino
    Matheus Lopes Quirino
  • 22 de mai. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 1 de jul. de 2020

\\ ENTREVERES

Quando dado pela primeira vez, o pum é um fator democrático para qualquer relação

Por Matheus Lopes Quirino


Era de manhã no sábado e eles foram buscar no vizinho pregos para martelar um estrado. Ali era batido, pela primeiríssima vez, um martelo – no sentido prático, pois no metafórico já ocorrera. “Me dá”, disse ele, com os olhos fixos no negócio, enquanto bocejava. “Descarrega sua raiva”, falava, agora, ele ao outro. Pá! Pá! Pá! Pá! Pá! Uma hora depois, o estrado, embora meio torto, já estava devidamente firme. Juntos, deram as mãos, e, com um ou outro dedo vermelho, saíram para almoçar no Balança, Mas Não Cai.


Houve também o dia em que, mais apertados do que tubo Colgate de nécessaire de universitário, eles juntaram os dinheiros perdidos pelo quarto para providenciar um jantarzinho minimamente digno. “Dez de dez, já tem um!”, “Uma de um e duas vinte e cinco”, “Cinco de cinco, duas de cinquenta”, “Põe naquela pilha, ali”. E por assim vai. Juntaram doze reais, foram ao mercado comprar macarrão e passata de tomate.

A nudez do tomate é saborosa. R. pensava nisso enquanto analisava com olhos de joalheiro lata por lata de uma promoção, cujo lote dispunha de compridas latas importadas de tomate pelado, algumas amassadas, quase todas, naquela altura do campeonato. Conquistados pelo preço, passaram a mão nas duas últimas latas boas e voltaram para casa, já tarde, na esperança de cozinhar.


As piras azuis da boca da frente foram se intimidando até cessarem. O gás acabou onze e meia da noite e começou a correria atrás de um bujão. “Alô, você entrega na Consolação?”, “Alô, você entrega na Consolação?”. Naquela hora, com todas as negativas possíveis, o consolo foi tido na padaria da Haddock Wolf, aquela cujo preço é de desconsolar. Nada de bujão. E gás, só de outra natureza.


Do batuque ao estrado, é tudo uma questão de ritmo. Do bloco de carnaval ao natal é tudo uma questão de bebida. Do pum ao assovio, é toda uma questão de silêncio – que colabora ou não. Aliás, falando em pum, quando uma das partes do casal solta o primeiro pum (em público, digo, na frente do outro), bem, dizem por aí que é um caminho sem volta. Abriu-se a porteira. “Chega de disfarçar”, disse a Maria Eugênia ao José Carlos, e completou: “Eu sei que não é o pé da cadeira que arrasta”. O José Carlos bem que tentou, teve suas tentativas de abafar o pum frustradas no elevador, quando este deu um tranco e a coisa saiu ruidosa. Desesperado com o solavanco, no escuro, o jeito, ao sair do cubículo, foi culpar a dona Otávia do 82, “É carniça velha”, desculpa que não durou muito.


Como diria vovó Ruth, “Tem gente que acha que não tem, não solta”. Referia-se a esse assunto cabeludo, o pum. Desde criança ela naturalizou o pum. “Olha o sapo coaxando!”, e ríamos os dois. Solta pum, prende pum, há quem ache absurdo o som grave de um pum soltado na calada do dia ou da noite. Sendo que esses não são os piores, em matéria de pum, o discreto é o mais fedorento. Como um fole, esganiçado, sai em três pontinhos...


Para fechar o assunto fedorento, a farra da criançada do meu primário (os meninos, claro) era o campeonato de pum. Gabriel gordo, nosso companheiro de classe superlativo, aquele que deu uma surra no menino que surrupiou seu lanche, era sempre o campeão, levantando a taça dourada no pódio da flatulência, enquanto ria e beliscava alguma delícia embalada em papel alumínio, geralmente um bolo de cenoura coberto com ganache de chocolate.


O pum indiscriminado é a mais alta marca da chancela de qualquer relação. Seja amizade, romance, coleguismo, camaradagem, ficância, chamem como quiser. Só o pum tem o poder de tirar o mais sério dos homens de seu trono idílico, jogá-lo em outro trono, esse geralmente feito de porcelana branca. O pum é um tapa na prepotência, entortando grandes narizes, colocando-os ao rés do chão, despindo bam bam bans de toda a pompa e quaisquer láureas que eles enverguem se pavoneando por aí afora. O pum é o verdadeiro som da democracia, uns disfarçam, outros endossam, alguns, depois do pum, bem, já sabemos...

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