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A descoberta do fogo

  • Foto do escritor: Tomás Fiore Negreiros
    Tomás Fiore Negreiros
  • 25 de set. de 2020
  • 2 min de leitura

\\ CONTOS

Brilhava a noite eterna, alimentando-se de excessos: sabia-se de mais, sentia-se em demasia, atormentava-se a cada segundo ... os feitios, as reações, os projetos as expectativas.

Por Tomás Fiore Negreiros


"Forever Now", de Simon Kenny.

Riscou-se a pedra gasta do isqueiro faiscando o céu noturno, ardendo-o em estrelas e conspirações. O céu? Os céus mesmo, em toda sua pluralidade multiforme. Iluminava-os: céus de ontem, de hoje, e talvez, os de amanhã. Os via todos acessos, irradiando línguas de fogo que cegavam qualquer um que tentasse defrontá-los diretamente e desvendar os seus segredos.


Brilhava a noite eterna, alimentando-se de excessos: sabia-se de mais, sentia-se em demasia, atormentava-se a cada segundo ... os feitios, as reações, os projetos as expectativas. Qualquer ignorância relativizadora era banida dos domínios dos astros. Ali não havia espaço qualquer para vulgaridades humanas; apenas heróis e vitórias valiam-se para as constelações eternas da humanidade.

E enquanto a noite já transbordava suas domínios, alimentando-se dos raios do dia e todo hélio do sol; todos os medíocres, temendo por suas vidas, se escondiam por entre as fendas e buracos mais escuros e úmidos. Refugiavam-se às pressas em pequenos bolsões desesperados, agonias aglomeradas em ninhos de incertezas. Riscando a poeira em dias, semanas, anos ... lamentavam o destino que lhes restava, amargando as colheitas perdidas.


O céu era feito de terra.


Digladiavam-se os colossos, cada qual sedia por mais conquistas e o trono celeste. Promessas de glória eterna e o eco do nome por toda História, era uma batalha suicida na qual a derrota não significava nada além do próprio fim; o vexame não era opção para nenhum dos envolvidos. Que destruíssem a terra, o mundo, tudo que existira e tudo que poderia vir. Que acabassem com tudo, afinal, qual seria feitio maior que não representasse toda sua potência? Que se consumissem naquele abraço eterno de forças, onde um só podia se sobressair com os demais de joelhos.


De repente, em um simples momento de vacilo. As chamas foram apagadas. A fonte secou, a luz se foi, os astros pereceram, a história se apagou, os corpos definharam, as promessas foram desfeitas. E de baixo das carcaças que jaziam no chão frio, restaram apenas as baratas que traziam consigo um isqueiro de pedra gasta.

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