Quatro poemas de Ruy Proença
- Frentes Versos
- 8 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
\\ POEMÁRIO
Por Ruy Proença*, especial para Frentes Versos

TIRANIAS
antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos
então
falávamos baixo
nos policiávamos
hoje
as coisas mudaram
os ouvidos têm paredes
de nada
adianta
gritar
(Visão do térreo, 2007)
AGORA
para Arnaldo Antunes
agora na fruteira o mamão apodrece agora o céu escurece agora apedrejam agora a lua rachou agora na rua o cachorro sou eu agora não mais tenho mulher agora a tira da havaiana se rompeu agora perco o ônibus e a esperança agora roubaram minha graça agora as estrelas se afogam agora meus olhos são míopes agora no lixo a salamandra e minha Szymborska agora minha mãe morreu agora o mar me derruba agora a morte me tira para dançar agora a cerveja está quente agora o pneu furou agora a faca de legumes me corta agora a canção me faz chorar agora o mundo sempre injusto agora entraram em minha casa agora as milícias matam o diferente e o igual agora a mata me perde agora nos presídios os evangélicos são facção agora passo fome agora não tenho nome agora meu amigo se foi agora meu eu se parte agora o vinho avinagra agora o leite azeda e transborda agora a vida é um bordel agora não tem mais por quê agora perco o sono agora perdi coisas e peso agora perdi o medo agora quero voar agora busco calor agora busco o sol agora sou coletivo agora sou cidadão agora grito meu sonho agora sou multidão agora sou uma voz agora atravesso paisagens agora cruzo países agora sou flecha a caminho agora nunca termino
(Monstruário de fomes, 2019)
CONFINAMENTO
o sol anda girando no céu
como um cometa
que perdeu a cauda o leme
as pessoas na terra
estão confinadas
olhando o sol doido
pela janela
seus pensamentos
abandonaram o corpo
e andam girando no ar
dentro de casa
como um sol sem céu
a língua está ociosa
o corpo quer recapturar
os pensamentos
o corpo precisa expandir-se
a língua precisa falar
o corpo precisa voar
até outros corpos
o corpo precisa voar
com outros corpos
(Inédito, 24/3/2020)
INQUIETAÇÃO
para Davi Kopenawa
segure o céu
para que não desabe
acalme a gritaria
dos trovões
queremos dormir
entrar em estado de espírito
entrar em estado de en-
canto
a primeira mulher
era peixe e foi pescada
as mulheres do vento
não são nossas mães
descendemos
de onças e japins
antas e cujubins
cutias e jacamins
(Inédito, 14/4/2020)
*Ruy Proença nasceu em 9 de janeiro de 1957, na cidade de São Paulo. Participou de diversas antologias de poesia, entre as quais se destacam: Anthologie de la poésie brésilienne (Chandeigne, França, 1998), Pindorama: 30 poetas de Brasil (Revista Tsé-Tsé, nos 7/8, Argentina, 2000), Poesia brasileira do século XX: dos modernistas à actualidade (Antígona, Portugal, 2002), New Brazilian and American Poetry (Revista Rattapallax, nº 9, EUA, 2003), Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (Publifolha, 2006), Traçados diversos: uma antologia da poesia contemporânea (Scipione, 2009) e Roteiro da poesia brasileira: anos 80 (Global, 2010). Traduziu Boris Vian: poemas e canções (coletânea da qual foi também organizador, Nankin, 2001), Isto é um poema que cura os peixes, de Jean-Pierre Siméon (Edições SM, 2007), Um certo Pena, de Henri Michaux (Pãooupães Editorial, 2017) e, de Paol Keineg, Histórias verídicas (Dobra, 2014), Dahut (Espectro Editorial, 2015) e Entre os porcos (Pãooupães Editorial, 2018). É autor dos livros de poesia Pequenos séculos (Klaxon, 1985), A lua investirá com seus chifres (Giordano, 1996), Como um dia come o outro (Nankin, 1999), Visão do térreo (Editora 34, 2007), Caçambas (Editora 34, 2015) e Monstruário de fomes (Patuá, 2019). Publicou também os livros de poemas infantojuvenis Coisas daqui (Edições SM, 2007) e Tubarão vegano e outros elementos (Espectro Editorial, 2018).
Comments