[Resenha] Os 120 dias de Sade: uma navegação à Escola da Libertinagem
- Frentes Versos
- 16 de jul. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de abr. de 2020
\\ LIVROS
Nova tradução dá ao leitor os anais de uma das histórias mais polêmicas da literatura ocidental
Por Giovana Proença
A tradução de Rosa Freire D’Aguiar publicada este ano pela Penguin, editora de os 120 Dias de Sodoma, livro escrito pelo francês Marquês de Sade, trouxe para o cenário brasileiro uma das mais controversas e escandalizadoras obras da literatura em um contexto de ascensão do conservadorismo.
São 429 páginas de relatos expondo as facetas mais sombrias dos desejos intrínsecos à sexualidade humana, fragmentados em uma introdução e quatro partes, três dessas ainda como rascunho esquematizando-as, assim chamadas pelo autor, paixões, mas nem por isso perdendo o poder avassalador de chocar o leitor. A obra é uma coletânea de vários escritos de Sade durante suas inúmeras prisões, devido ao aspecto boêmio e obscuro que permeou sua vida, reunidos em 1785 durante reclusão na Bastilha e publicada pela primeira vez em 1914. “Prepare seu coração e o espírito para o relato mais impuro que jamais foi feito desde que o mundo existe” o trecho emerge como convite logo no início do livro e, certamente, o autor, que cederia seu nome ao termo sadismo, esforçou-se para cumprir a promessa em sua narrativa, sintetizada por quatro amigos de alta posição social que decidem se isolar em um castelo na companhia das esposas, filhas, jovens e mulheres da vida para ouvir relatos de paixões em diversos níveis e encená-las
A trama do livro recorre a partir da exploração psicológica das personagens pelo narrador e fundamentada em suas falas e ações, corroborando a psique desses com o discurso do Duque de Blangis, um dos quatro amigos: “um homem, para ser verdadeiramente feliz, devia não só se entregar a todos os vícios, como nunca se permitir a virtude”. Desse modo, destacam-se as historiadoras, que, por meio de seus relatos, geram as tramas, tornando-se as verdadeiras comandantes do enredo em detrimento da forte dominação almejada pelos quatro protagonistas. A submissão das demais figuras a esses constituí um dos pontos polêmicos e geradores do sadismo da trama, sendo a ação de tais comparável ao excerto do poeta de teor erótico paulistano Roberto Piva “Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados/e violentos aniquilando os mercadores/roubando o sono das virgens/criando palavras turbulentas”.
Evidencia-se por si própria a linguagem extremamente explícita empregada por Sade, dispensando eufemismos, o que levou Rosa Freire D’Aguiar a recorrer a poetas eróticos portugueses contemporâneos, ao autor na compreensão do léxico libertino em seu processo de tradução. Assim, a obra é marcada por descrições minuciosas e com clareza no discurso, levando à construção de imagens e aproximando o leitor pelo recorrente diálogo direto.
A descrição e a clareza opõem-se à abertura a imaginação do leitor, instigando sua curiosidade.
Além do ritmo narrativo de parágrafos longos nos quais os relatos desenvolvem-se pela gradação, aumentando sua tensão até um clímax, paralelizando-se com o mote principal do livro.
Sade inicia a obra reforçando sua temporalidade no fim do reinado de Luís XIV, evidenciando a importância do contexto histórico para a trama, de modo que, analisando o estupor e a euforia da Revolução Francesa, na qual Os 120 Dias de Sodoma foi escrito, e seu clamor por liberdade, o autor paralelamente subverteu seu próprio clamor por libertinagem. A naturalidade com a qual escreve e descreve temas considerados ainda hoje tabus, prova a total falta de amarras morais e sociais do autor, que gera repulsa e escandalização simultaneamente à instigação quanto aos mistérios, desejos, limites, perversões e à linha tênue que os separam e permeiam a sexualidade humana.
Em seu posfácio, Elaine Robert Moraes propõe quanto ao contexto do século XXI, “Estaríamos nós, finalmente prontos para essa leitura?” A resposta permanece tão incerta quanto seu tema, entretanto, é certo afirmar que é preciso afrouxar as correntes de séculos de moralismo e conservadorismo culturais para mergulhar ou, ainda, molhar os pés nessa Escola de Libertinagem.
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TÍTULO: Os 120 dias em Sodoma AUTOR: Marquês de Sade (Tradução Rosa Freire D’águiar)
EDITORA: Penguin/Companhia das Letras
ANO: Edição 2018
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