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O cinema de maio de 68: um ponto de chegada ou partida?

  • Foto do escritor: Frentes Versos
    Frentes Versos
  • 11 de jul. de 2018
  • 6 min de leitura

Atualizado: 10 de abr. de 2020

\\ CINEMA


Movimento liderado por estudantes, tomou grandes proporções e influenciou todas as artes, inclusive o cinema


Por Carolina Novaes, Colaboração para Frente & Versos

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(Imagem/reprodução)


“Devemos ser diferentes de nossos pais. Meu pai lutou contra os alemães na grande guerra, e agora, dirige um clube mediterrâneo… um grande campo de férias no litoral. O que é terrível é que ele não percebe que é construído exatamente no mesmo esquema que os campos de concentração”. Frase do personagem “Guilllaume”, interpretado por Jean-Pierre Léaud no filme “A chinesa” (1967), de Jean-Luc Godard.


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(Imagem/reprodução)


A frase acima é somente uma dentre tantas outras de cunho crítico-político durante o filme, e que ironicamente, de forma simplória, transmite os anseios da geração de 68. Uma geração que já não aceitava passivamente a sociedade e suas convenções impostas. Buscavam liberdade e descobriram na ideia da possibilidade de mudança, a força do movimento.

Maio de 68 inicia em um período de pós-guerra, em que se tinha uma estabilidade social e política ainda em construção, – mas que há uma década atrás ainda estava fragilizada-. Porém esse cenário estaria com os dias contados. O motivo? a guerra fria e seus desmembramentos. Desmembramentos esses que esbarravam com a Guerra do Vietnã – que acabara de se tonar extremamente sanguinária em 1968 – ; o pós independência da Argélia que havia deixado seus rastros na França, já que muitos soldados que participaram moravam na França; os movimentos pelos direitos civis que estavam ganhando força principalmente nos Estados Unidos; e a América Latina, que passava por Estados de exceção. Em meio a isso, estudantes da Universidade de Nanterre, localizada em uma área periférica de Paris, começavam seus protestos inicialmente com pautas por uma reforma na educação e maior liberdade sexual. Entre as duas reivindicações, a primeira provinha da ideia de uma reforma na grade curricular das universidades, assim como uma forma de resistência já que, por conta da baixa empregabilidade, o governo acabara de diminuir as vagas das universidades; a segunda porque o mundo passava por uma década em que o debate da sexualidade começava a ser feito abertamente, mas os dormitórios femininos e masculinos das universidades eram privados de qualquer presença do sexo oposto.


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(Imagem/reprodução)


O movimento que teve seu estopim no dia 10 de maio, ficou reconhecido por suas enormes barricadas feitas por estudantes. E cresceria cada vez mais com adesão de outras pautas e população.

A respeito disso o professor do curso de jornalismo da Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, José Salvador Faro em entrevista afirmou que a época funcionou como uma corrente de ar fresco sobre a sociedade de controle erguida no pós-guerra. “Penso que é essa característica que deu aos protestos da época sua coloração política existencial”. Segundo ele, as transgressões aos padrões autoritários e conservadores da sociedade é a principal herança deixada por maio de 68.

Enquanto estudantes tomavam cada vez mais as ruas de Paris, outras parcelas da população como operários e classe artística começavam a aderir ao movimento, sendo esta última muito presente, contando com personalidades renomadas do cinema, como os cineastas Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Lelouch.

As movimentações no cinema começaram a acontecer meses antes de maio. No dia 9 de fevereiro, cineastas como os nomes citados acima e outros, tomaram a Cinemateca do Palais Chaillot, em defesa de Henri Langlois, que havia sido substituído por decisão governamental, e que na época soou aos ouvidos dos artistas como uma decisão de cunho político. Começaram então protestos e Langlois retomou seu posto. O mesmo grupo de cineastas conduziria em 19 de maio o fechamento do festival de Cannes.



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(Imagem/reprodução)


Cannes e seu cancelamento

Para apoiar os estudantes que até então estavam em greve, os cineastas arquitetaram um boicote em Cannes. A ideia de estar acontecendo um evento em meio àquele maio de 68 parecia não fazer sentindo aos ouvidos de tantos cineastas e artistas entusiastas do movimento.

Liderados por François Truffaut e Jean-Luc Godard, estudantes de cinema e sindicalistas pedem o fim do festival. Com somente a exibição de 11 dos 28 filmes do festival, conseguiram o encerramento do evento em 19 de maio.

As roupas do cinema francês já não cabiam nos cineastas da época. Eles, queriam um cinema novo, que fosse capaz de transcrever para a linguagem audiovisual tudo o que aquela inquietação social tinha a dizer.

Um modelo de cinema novo na França, reconhecido como “Nouvelle Vague” já acontecia, e o professor Mauro Luiz Peron constata que é importante lembrarmos que a Nouvelle Vague francesa foi mais intensa no período de 1958 a 1962, mas que mesmo assim, os principais cineastas desse período continuaram a realizar trabalhos importantes após esse período. “Maio de 1968 representou um momento de muita ebulição política, constituindo uma matéria-prima poderosa para o Cinema da Nouvelle Vague, tanto em termos estético-políticos quanto, simultaneamente, em termos estético-formais”.

Entre os cineastas franceses, o que mais se destacou nessa militância do cinema, sendo inclusive duramente criticado por amigos e admiradores, foi Godard. Seu filme “A chinesa” (1967) é tido como um trabalho que antecede o pensamento das movimentações de 68, já que o cunho político e questões sobre a educação na universidade são claras na narrativa.

Em continuação, a entrevista com o professor Peron, explica que “A Chinesa” conversa com seu tempo; as trajetórias; o Maiosmo e a luta dos estudantes e trabalhadores “Mesmo que Maio de 1968 não tivesse ocorrido como o foi, o filme já seria um instigante exercício estético de interrogar a própria estética do Cinema”. Completa ainda dizendo que, nos dias atuais, assistir ao filme poderia funcionar como um exercício para um olhar novo sobre a narrativa cinematográfica, o que segundo o professor, ofereceria poucas respostas e muitas perguntas.

Mesmo que ainda faça da parte do cinema convencional do cineasta, o filme é tido como um marco e está estre suas obras mais importantes. A sua fase realmente política, conhecida como “fase maoísta” irá acontecer entre 1968-1972, quando abandona totalmente o cinema convencional e passa a fazer um cinema totalmente político, chegando ao ponto de abandonar seu nome nos créditos, para fazer filmes coletivamente – o que não terá nenhum sucesso, pelo temperamento difícil de Godard e a dificuldade em se dirigir um filme sem uma hierarquia declarada-.

Toda essa dedicação de Godard surgira da ideia de que para ele a revolução seria feita por todos em conjunto, e de que, portanto, seu trabalho deveria retratar única e exclusivamente essa ideologia. Ele chega a fazer a seguinte declaração em um programa de tv: “Não somos mais artistas. Somos porta-vozes, para trazer a Revolução, para que tudo não aconteça sempre do mesmo jeito, para que a televisão pertença a todo mundo”, como relata sua ex-esposa Anne Wiazemsky, em seu livro “Um ano depois”.


“Godard dá voz à juventude. É o cineasta da juventude” diz Ivana Bentes em uma palestra no CCSP sobre os 50 anos de maio de 68.

Mesmo que Paris tenha sido o foco de 68, a América também participava com grande fervor das pautas. Nos Estados Unidos, os movimentos de contracultura ganhavam força e notoriedade mundial. O Brasil enfrentava um de seus períodos mais obscuros com a instauração do AI-5, mas ao mesmo tempo, o chamado “cinema novo” e os filmes de Glauber Rocha sobressaiam por suas críticas mesmo em meio à dura repressão do sistema ditatorial da época. Um exemplo disso, é seu filme “Terra em transe” (1968), que faz duras críticas à repressão da época de forma subjetiva. A obra ganhou os prêmios “Luis Buñuel” e “Fipresci” no Festival de Cannes, em 1967. No mesmo ano recebeu o prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Havana e ainda o Grand Prix no Festival de Locarno (Suíça). Em terras brasileiras foi premiado como melhor filme e diretor no Festival de Cinema de Juiz de Fora; e em diversas categorias pelo Governo do Estado de São Paulo. “Glauber Rocha, foi o cineasta cuja personalidade forjou uma narratividade de Brasil de grande impacto estético-político, cuja frente estilística dialoga com as correntes, mas possui identidade própria” completa Peron.

Glauber foi um dos nomes dessa efervescência cultural que as artes no Brasil e o mundo iriam desfrutar, reverberando até os dias atuais. A respeito desse ano, Zuenir Ventura, autor de “1968: o ano que não terminou”, em um debate no Cinearte, diz que 1968 é uma obra aberta e que permanece de alguma forma na atualidade.

Seria então maio de 68 um ponto de chegada ou de partida? Segundo o professor José Faro, esse ano historicamente foi ambos ” […] ponto de chegada em razão da insatisfação geral que a sociedade industrial provocou nos anos 60; ponto de partida porque talvez a essência dos problemas ainda não esteja inteiramente resolvida”.

Na perspectiva do cinema, o professor Mauro Peron conclui que talvez possamos considerar que todo momento de importantes viradas históricas seja ponto de chegada e de partida, “justamente mediante um movimento dialético entre o que permanece e o que surge” dentro de uma mudança. E completa que estamos sempre diante de condições materiais de existência, diante de processos políticos e de culturas em enfretamento. “Tratam-se de exemplos sobre os quais o Cinema, necessariamente, se posiciona, oferecendo narrativa de distintos aportes. Assim, também o Cinema é um vir-a-ser e uma deixar-de-ser”.


(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da F&V)

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