Nove Histórias, coletânea de Salinger expõe talento narrativo do escritor norte-americano
- Giovana Proença
- 15 de set. de 2020
- 2 min de leitura
\\ LIVROS
J. D. Salinger deixa rastros de seu evidente talento como contista. Acima de tudo, um narrador nato, como prova a voz de Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio. Nos contos, ele é O Narrador
Por Giovana Proença

Ler Salinger é como sentar à mesa com um amigo. O autor norte-americano compõe como ninguém a expressão da linguagem coloquial. A experiência literária é pautada na íntima proximidade, diálogos desconcertantes perpassam as páginas dos Nove Histórias, livro que chegou aos leitores brasileiros com brilhante tradução de Caetano Galindo, em renovação da linguagem simples e direta do estadunidense em edição pela Todavia. Se dois anos antes Salinger já tinha se consagrado e colocado Holden Caulfield na lista dos mais populares personagens literários de todos os tempos com a publicação de O apanhador no campo de centeio, as 9 histórias o colocam em um novo patamar; representando um dos mais célebres momentos da narrativa breve de língua inglesa.
“Um dia ideal para os peixes-banana", conto de abertura da coletânea, originalmente publicado na revista The New Yorker, dita o tom do livro. A narrativa é um dos contos mais afamados, redefinindo toda a arte da contação de estórias. Salinger sabe construir personagens que transitam no limite da desrazão. No limiar, o trauma da guerra, conflito que antecedera os anos da publicação dos Nove Histórias e alastrava seus rastros no âmago da sociedade norte-americana, marca sua presença na coletânea. Logo no primeiro conto, apontado constantemente como o melhor entre os nove, a nuance corriqueira duela com a mais estonteante descrição de um suicídio de toda a literatura, arrisco apontar.
Há tensão crescente dos enredos, nos contos que são verdadeiros nocautes até para leitores mais prevenidos, Salinger traz novos ares à teoria aplicada por Edgar Allan Poe, o rei do clímax narrativo na literatura de língua inglesa. O autor de O apanhador no campo de centeio brinca com falsos ápices, questiona intenções, aflige nossos corações para no fim dizer: é só isso; ou não. Quando por fim respiramos aliviados, vem o golpe. A prosa jovial do autor afaga antes de matar, mas antes nos regala com os momentos de alívio, no humor cotidiano.
Nove Histórias nos oferece uma visão da sociedade americana pós-guerra, estilhaçada pelos rastros do maior conflito bélico da humanidade, e suas consequências arrigadas no sujeito. A crise do american way of life ganha novos contornos no retrato nas palavras do autor, cortantes por sua simplicidade e falta de adorno clássicos, reinando, sobretudo, a sutileza, o peso do não dito que grita nas entrelinhas incompreensivas de uma sociedade que agoniza, mas não sabe bem por quê.
J. D. Salinger deixa rastros de seu evidente talento como contista. Acima de tudo por ser um narrador nato, sem necessidade de andaimes ou passarelas, deixando as palavras das personagem ecoarem sem muito esforço, como a voz Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio. Nos contos, ele é O Narrador, demonstração viva da imortalidade do narrar vinculado à experiência, uma subversão de Walter Benjamin, notório ensaísta e explorador do silêncio sobre a vivência da guerra, fratura aberta para seus experimentadores. Ler Salinger é como sentar à mesa com um amigo, mas nunca se sabe o que será servido.
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TÍTULO: Nove Histórias
AUTOR: J. D. Salinger
EDITORA: Todavia
ANO: 2019
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