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Nas necrópoles de São Paulo, a arte tumular faz jus a acervos de museu

  • Foto do escritor: Frentes Versos
    Frentes Versos
  • 30 de jun. de 2020
  • 3 min de leitura

\\ ARTE

a adesão de obras modernas foi se intensificando no decorrer do século e, hoje em dia, o Cemitério da Consolação possui um acervo riquíssimo

Por Marina Ribeiro Oliveira*, colaboração para Frentes Versos


TOMBADO. Victor Brecheret —Túmulo de Olívia Guedes Penteado. (Commons/divulgação).

A escultura de Granito Itaquera possui dimensões de aproximadamente 2 metros de altura por 4 metros de comprimento e 75 centímetros de profundidade, ou seja, é uma composição achatada que parece um relevo, também por causa do alongamento anatômico e da disposição espacial das figuras. A geometrização é marcante no arredondamento das vestes e dos penteados das mulheres, nas auréolas de Cristo e de Maria, nas bocas abertas e nos corpos de todas as figuras. A simplificação de elementos anatômicos e materiais indica uma preferência ao enfoque psicológico do tema abordado: o sepultamento de Jesus. A dramaticidade e a tragédia da cena estão evidentes e reforçam a aura fúnebre do seu tema. Assim, quem vê O Sepultamento ou, originalmente, Mise au Tombeau de Victor Brecheret no Cemitério da Consolação não duvida de que essa obra foi construída com esse local em mente. Entretanto, a realidade não é sempre tão evidente.


No começo da década de 1920, Brecheret viajava mais uma vez para a Europa a fim de aprimorar seus conhecimentos artísticos. Nesse mesmo período, o contato com Ferdinand Léger, Constantin Brancusi, Aristide Maillol e a arte oriental foram decisivos para transformar o estilo clássico do escultor ítalo-brasileiro para uma estética mais moderna e despojada. Com essa nova visão, o artista se inscreve no Salon d’Automne (Salão de Outono) em Paris com o gesso Mise au Tombeau em 1923, que além de garantir o prêmio do concurso também proporciona o seu reconhecimento internacional. Somente mais tarde é que essa obra em granito foi comprada pelo mecenas dos artistas e intelectuais brasileiros, Olívia Guedes Penteado, e adaptada a uma base de Granito Cinza Mauá para ocupar a jazida da família Guedes Penteado.


Aliás, especula-se que Victor Brecheret tenha homenageado a senhora Guedes Penteado com essa escultura ao representá-la como uma das mulheres que acompanham Maria nessa cena trágica. Segundo essa teoria, três santas bíblicas estavam no sepultamento de Jesus: Maria Betânia, Maria Madalena e Maria Salomé. Logo, a quarta figura poderia ser interpretada como uma representação de Olívia Guedes Penteado. Porém, não se tem como certo o número de pessoas presentes nessa passagem da Bíblia. É possível observar isso na variação da quantidade de figuras das inúmeras representações dessa cena ao longo da história da arte. Também é provável que Brecheret tenha escolhido representa um número par de personagens para harmonizar a composição da obra.


Em contrapartida às especulações anteriores, é certo que a obra O Sepultamento dialoga bem com a sua localização devido ao seu tema e estilo moderno. O Cemitério da Consolação possui muitas esculturas fúnebres de artistas célebres do Brasil e do mundo expostas ao ar livre, em sua maioria, com uma estética acadêmica por existir desde a primeira metade do século XIX. Entretanto, a adesão de obras modernas foi se intensificando no decorrer do século passado e, hoje em dia, o cemitério possui um acervo bastante diversificado na arte tumular se assemelhando a um museu.


Quando a realidade é insuportável, a arte é a única salvação ou nas palavras do filósofo alemão Nietzsche “temos a arte para não morrer da verdade”. A arte tumular não é só importante por ser uma maneira de homenagear àqueles que já se foram e de manter viva a sua memória, mas também por expressar o sofrimento universal da perda irreparável de um ente querido. Cada entalhe de O Sepultamento é a expressão desse sentimento serve como lembrete ao seu observador de que a dor do último adeus é vivenciada por todos.


Infelizmente, o famoso “museu a céu aberto” permite que suas obras fiquem expostas a poluição, colônias de fungos, chuva ácida e correndo riscos de serem furtadas. Por ser uma escultura de material pétreo, Mise au Tombeau não sofreu tanto com a ação humana direta como as outras obras feitas de bronze, mas ela pode ser danificada com os outros tipos de interferência supracitados. Por outro lado, de tempos em tempos a famosa escultura de Brecheret passa por processos de conservação e restauro para podermos apreciá-la como seu autor intencionalmente desejava.


*É aluna do curso Arte, História, Crítica e Curadoria da PUC-SP

(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da Frentes Versos)

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