Macondo e outros poemas
- Frentes Versos
- 25 de set. de 2020
- 3 min de leitura
\\ POEMÁRIO
Por Marina Rima*, colaboração para Frentes Versos

Macondo
[...] e outra vez as datas se confundiram, os marcos foram trocados, e os dias começaram a se parecer tanto uns com os outros que não se sentia passar.
Gabriel Garcia Márquez, em Cem anos de solidão
meu pais moram numa casa bem antiga
da rua antônio alves
achamos que ela está aqui desde os anos 50, como a casa do
seu gentil e da dona mariquinha
minha mãe não se lembra se a chamava de elefante branco
em 1963 ou depois, quando já estava na faculdade
de fato, é um elefante branco e ruidoso,
talvez um mamute albino, raro, último da sua espécie
meu pai comprou a casa porque gostou do mármore cinza
cobrindo a área da garagem toda
e, no quarto deles, armários enormes até o teto
da madeira mais escura que eu já na vida
é uma casa moderna com uma história barroca
*
a casa tem três caixas-d’água
pequenas, de uns mil litros
e a água vem da rua quando é madrugada
toda noite, ouço a água passar pelo cano,
subindo pela calha, por dentro da parede
como se fossem cem cavalos correndo num pista apertada
há todo tipo de ruído: maquinário, explosão, briga,
tuba, corrente, latido, campainha, pedido de socorro,
urgência
à meia noite se liga o coração da casa
que bombeia o barulho por todos os cômodos
*
moramos aqui desde o fim dos anos 80
eu mesma nasci nessa casa, neste endereço
cresci junto com a árvore de acerola e a parreira de uva
como elas, quebrei o piso para crescer
e provoquei rachaduras
a cozinha, o escritório e o quintal estão bastante prejudicados
minhas irmãs dizem que não vale mais a pena
consertar as rachaduras é que pode derrubar a casa
qualquer reparo pode ser fatal
*
morando há algum tempo em outros endereços
esqueci o quanto isso existia
o quanto é parte de quem aqui vive
o acrílico da escada, o telhado onde a maritaca mora,
aquele cobogó
antes a casa era de outra família, mas minha mãe disse que eles
perderam a casa duas vezes
me pergunto como é possível perder uma casa
você entrega as chaves e vai embora? e depois fica condenado a passar na
frente e tentar entrar por uma fresta da janela?
*
uma vez a filha de uma pessoa que morou aqui, nos anos 60
passou e bateu a campainha
contou várias histórias de antigamente
fez da porta da sala um buraco da minhoca, em que é possível
saltar no espaço-tempo
e lembrou dos armários que sua mãe escolhera
e de mitológicas torneiras banhadas a ouro, no banheiro
entrou no espaço da memória, um lugar em que a prefeitura não pode
cobrar o iptu
em que não há perda ou despejo
um lugar onde não há desgaste
o ouro brilha como nunca
*
uma outra coisa sobre a casa é que ela tem muitos esconderijos
você pode passar horas brincando de esconde-esconde
ou se posicionar estrategicamente numa fresta aberta, aparentemente sem motivo,
e esperar até que alguém passe pra dar um susto
aqui, é possível estar próximo e distante de tudo
encontrar e perder todas as coisas
a casa tem o poder de alienar o mundo
e criar um mundo paralelo, em suas vozes, ruídos,
raízes
*
nos espelhos já embaçados
é possível ver os setenta anos dessa casa,
e também os cinquenta da primeira reforma
nem tudo funciona, nem tudo responde, nem toda porta
abre (como do cofre, do sótão, da caixa d'água subterrânea)
nos acostumamos com isso
mas sabemos que as coisas não são como antes
e caminham pra seu próprio vendaval
(feito Ulisses rumando ao naufrágio)
um dia, como no romance do Gabo, um grande vento passará
varrerá toda solidão sobre a terra
método para chegar a Georges Bataille
o olho não vê a intimidade das coisas
[enquanto isso o pensamento salta]
as ondas arrastam
as malas deslizam
os miolos moles
se eu subisse um degrau
se eu subisse um degrau
nenhum novo modo de atravessar o espelho.
sempre o mesmo método. passar mãos,
passar o tronco, passar as pernas -
nada existe como coisa acabada.
o olho não vê o segredo das coisas.
então, corta e entra na pele debaixo da pele.
encosta o umbigo no umbigo do mundo.
deixa cobrir o mar.
lo que no sé
te encuentro para decirte que estoy enamorada otra vez
¡qué surte! me dirías
pero, ¿que suerte?
nadie sabe
SOS BR


*Marina Rima é poeta e pesquisadora. Escreveu vênus partida ao meio (patuá, 2017), estaca zero & outros desvios de percurso (urutau, 2018) e toda janela é algum tipo de saída (penalux, 2019). Os poemas aqui publicados estarão em seu novo livro: peças avulsas de um jogo de tabuleiro, a sair pela urutau, em 2020. Disponível em pré-venda aqui: benfeitoria.com/coberta
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