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De William Zadig, O Beijo Eterno é uma efígie do amor proibido

  • Foto do escritor: Frentes Versos
    Frentes Versos
  • 4 de jul. de 2020
  • 5 min de leitura

\\ ARTE

Obra dos amantes foi amplamente criticada pela população paulista desde a sua inauguração em 1922

Por Maria Eduarda Meneses Gomes*, colaboração para Frentes Versos

Beijo Eterno, de 1920, escultura de Willian Zadig no Largo São Francisco – Foto: Reprodução / Claudio Wakahara


No Largo de São Francisco reside uma das obras mais controversas na história da cidade de São Paulo. O Beijo Eterno, estátua criada pelo escultor William Zadig em 1920, tem como objeto dois amantes entrelaçados em um beijo e uma trajetória de muitas rejeições.


O casal apaixonado se embraça, nu, em um beijo apaixonado. Os amantes se unem, puxando um para o outro, o homem segura e levanta a mulher pela cintura para mais perto dele enquanto ele está sentado e ela em pé. A mulher abraça o homem pelo pescoço e então se beijam apaixonadamente. Eles se comportam como se estivessem sozinhos, em um estado perpétuo do epítome do seu amor, às vistas de quem puder passar por ali.


A cena é demasiada íntima, o amor dos dois provoca todo tipo de inquietação nas pessoas, que certamente não é uma cena que se espera ver em público,e é até mesmo pouco usual enquanto monumento, no espaço aberto da cidade. O Beijo Eterno de fato se configura um pouco fora de contexto do seu entorno, e foi exatamente por isso que foi tão criticada. Essa cena singela entra em contraste com o movimento da cidade, quase como se o tempo estivesse parado para o casal de amantes, em meio ao cotidiano das pessoas que se preocupam em ir ao trabalho e realizar suas tarefas.


O Beijo Eterno, porém, não foi feito sobre um casal qualquer, ele foi inspirado no poema Beijo Eterno de Olavo Bilac (1865-1918), publicado no livro Poemas (1888) e faz parte da terceira parte do livro, intitulada Sarças de Fogo, onde o autor retrata sentimentos apaixonantes com uma linguagem mais sensual e erótica, como pode-se ver na segunda estrofe do poema de Bilac: Fora, repouse em paz / Dormida em calmo sono a calma natureza, / Ou se debata, das tormentas presa, - / Beija inda mais! / E, enquanto o brando calor / Sinto em meu peito de teu seio, / Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio, / Com o mesmo ardente amor!


Com a morte do autor, houve muita comoção pela perda do “príncipe dos poetas brasileiros”, e então, representantes do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, juntaram-se para angariar fundos para uma homenagem ao poeta, que ali estudara, do qual seria um grande monumento, feito em bronze e granito.


O Beijo Eterno (1920), portanto, faz parte de um conjunto escultórico em homenagem ao escritor parnasiano, inaugurado nos cem anos da Independência do Brasil, e implantado inicialmente na área da atual Praça Marechal Cordeiro de Farias, no cruzamento da avenida Paulista com a Rua da Consolação. Mesmo em seu local de origem e dentro do contexto do monumento por inteiro, a obra dos amantes foi amplamente criticada pela população paulista desde a sua inauguração em 1922.


O Monumento a Olavo Bilac, que continha um busto do autor e diversas esculturas secundárias que representavam algumas de suas obras e parte de seus pensamentos acoplados na sua base e em torno do pedestal de granito, foi logo desmontado em 1936 durante as várias reformas na região e levado cada parte sua separada ao depósito.


O contexto inicial e o conjunto da obra foi perdido em apenas 14 anos de sua existência, e ainda nesse período há diversos relatos negativos perante o monumento, não somente pela nudez dos dois amantes, mas também por supostamente atrapalhar o trânsito, “não possuir qualidades estéticas” e até mesmo sendo ridicularizado por Bilac parecer “emergir de um panetone”. Mesmo com um grande apoio de um grupo pela criação da obra homenageando um autor recém-falecido de grande importância para o Brasil e amplamente aclamado, o monumento não conseguiu se manter.


Com suas partes separadas, O Beijo Eterno foi retirado do depósito em 1956 para ser exposto individualmente no Largo do Cambuci. Sem o apoio dos outros fragmentos do monumento, O Beijo Eterno foi rapidamente alvo de diversos tipos de críticas. Os moradores do bairro se juntaram para protestar contra a instalação da obra, pois segundo eles era obscena e imoral, um verdadeiro "atentado ao pudor". Toda essa organização contra um casal de amantes se deu no decorrer de 24 horas, quando eles foram retirados novamente do espaço público e levados mais uma vez ao depósito.


Com as partes do conjunto escultórico separadas, elas foram reinstaladas em diversos locais da cidade, em contextos diferentes e com sentidos diferentes. Com uma curta vida, o monumento em sua totalidade deixou de ser realidade e se tornou apenas uma memória embaçada e um amontoado de esculturas independentes. O Beijo Eterno sofreu, portanto, com o ódio da população e com a angústia de ter de ser desmontado e levado ao depósito e a locais passageiros.


O Caçador de Esmeraldas, um outro fragmento do monumento, que retrata o bandeirante paulista Fernão Dias Paes Leme com uma arma na mão, baseado no poema do autor de mesmo nome da peça, também instalado isoladamente, nunca se teve qualquer questionamento sobre a obra, mesmo homenageando tal pessoa. Essa parte da obra, porém, após ir para o depósito em 1936 juntamente com todas as outras esculturas, foi reinstalada em um edifício público do Governo do Estado, em uma escola que partilha do mesmo nome do bandeirante paulista.


Dez anos após a retirada do Beijo Eterno do Cambuci, em 1966, tentou-se reinstalar a obra, dessa vez de forma mais discreta, na entrada do túnel Nove de Julho, onde os amantes somente seriam vistos rapidamente pelos carros passando. Ainda assim, ainda não era o suficiente para a população paulista: logo foi feito um pedido de retirada da obra pelo vereador Antonio Sampaio, que fez o pedido na câmara alegando ser um “atentado ao pudor e aos bons costumes”, obscena demais para ser vista pelas senhoras da cidade.


No entanto, toda essa animosidade gerou uma comoção pelo amor proibido do casal. Com o receio da obra parar novamente no depósito, membros do Centro Acadêmico XI de Agosto, o mesmo que tornou possível a criação da obra no início do século, teriam resolvido ir até o túnel Nove de Julho na madrugada do dia 17 de outubro do mesmo ano e ter pego a peça. O par foi realocado em via pública, na frente do Largo de São Francisco, onde todos que passam podem vê-los e admirar a perseverança dos dois amantes, que após tantas turbulências, vivem em paz a 53 anos no local.


Durante toda a sua história, foram feitas diversas reclamações e julgamentos sobre a obra dos apaixonados. A aproximação de dois corpos em uma representação de amor puro foi a mais criticada de todo o monumento. Os amantes, apesar de estarem despidos, não têm nenhum órgão genital à mostra, outras obras espalhadas pela cidade os exibem e, por outro lado, não tiveram pedidos de remoção. Até mesmo a representação de um bandeirante em O Caçador de Esmeraldas passou despercebido pela população.


É curioso que uma cidade com o histórico de permanência de monumentos de bandeirantes, não somente o de O Caçador de Esmeraldas, mas o próprio Monumento as Bandeiras (1953) do Victor Brecheret, mesmo depois de grande apelo social não somente pela retirada da obra, mas também por uma certa ressignificação, não dá ouvidos a esses pedidos e está sempre prontamente disponível a retirar uma obra dita “imoral”. Um beijo é considerado mais imoral do que a representação de um bandeirante, somente o amor eterno pôde ser tão reprovado pelos paulistas. Quero um beijo sem fim, / Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo! / Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo. / Beija-me assim! / O ouvido fecha ao rumor / Do mundo, e beija-me, querida! / Vive só para mim, só para a minha vida, / Só para meu amor! Escreveu o poeta.


(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da Frentes Versos)

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