Revelando Ana C.
- Giovana Proença
- 2 de jun. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 3 de set. de 2020
\\ ESPECIAIS
A poesia de Ana Cristina se desenrola no momento, não é apenas o presente suspenso, é o instante. Mas o agora é arredio, ele muda de ângulo, obrigando a escritora a alternar os focos de sua câmera.
Por Giovana Proença

Revelado, o filme da máquina fotográfica nos entrega Ana Cristina César: ar superior na postura estática e os volumosos cabelos na altura dos ombros, o mistério completo pelos óculos escuros, modelo clássico dos anos 70. Ana se apresenta, mas mostra apenas o que escolhe exibir. Os penetrantes olhos azuis, esconde atrás das lentes. Com eles, grande parte da intimidade que fascina os adeptos de sua literatura.
Páginas de diários, cartões postais, correspondências, fotografias e papéis avulsos estão esparsos sobre a mesa. Ana nos deixa espiar a coleção de materiais biográficos que dialogam com sua literatura, em constante duelo com as leis das letras, defendidas pela própria escritora em sua tese de mestrado Literatura não é documento, orientada pela amiga Heloisa Buarque de Hollanda.
“Nasci. Nasci numa segunda-feira, no dia 2 de junho de 1952. [...] Eu era rosada, careca e de olhos azuis.” Conta a Ana Cristina de 12 anos em suas Memórias de uma criança. Na biografia de sua infância, a escritora oferece um presságio de sua passagem pela literatura brasileira: o memorialismo transposto para as páginas. A poesia se manifestou cedo na jovem Ana Cristina, ditava seus primeiros versos, até conquistar a habilidade com o lápis. “Eu era menina e já escrevia memórias, envelhecida/ O tempo se fazia ao contrário”, versou a poeta sobre as recordações que atravessam sua vida e sua obra em cruzada.
Se me arriscasse a definir Ana Cristina César em uma palavra: múltipla. Transita com elegância entre a poesia, a prosa, o ensaio e a tradução. A poeta carioca pertence a geração mimeógrafo, movimento cultural pós Tropicália, marcado pelas formas alternativas de difusão artística. Um de seus principais expoentes, em meio a repressão política que sufocava o país, Ana oferece um respiro: a politização do cotidiano. Com a astúcia necessária para ironizar métodos de seu próprio movimento, reproduz cartas e diários. Indissolúveis, ficção e fatos são mesclados. Na máquina de escrever, ata no mesmo laço prosa e poesia.
O poder de Ana C está na configuração de sua sintaxe, única na poesia brasileira. O tom narrativo dos versos é herdado da dicção modernista, renovada pela poeta e por sua geração. Sobretudo, ela tenta capturar o agora. A poesia de Ana Cristina se desenrola no momento, não é apenas o presente suspenso, é o instante. Mas o agora é arredio, ele muda de ângulo, obrigando a escritora a alternar os focos de sua câmera. Nasce a velocidade do ritmo poético, a profusão de cenas e sentimentos que se lançam em velocidade. Um momento de respiro e o instante é memória, carregada de seus sentidos emocionais. Ler Ana é acompanhar a recordação e a estranheza em velocidade máxima, os tempos em colisão.
Tons verde e amarelos se misturam aos ares estrangeiros. A experiência no exterior – Ana Cristina passou duas temporadas na Inglaterra – perpassa sua obra. Uma forasteira com vista privilegiada para anotar as cenas que não escapam a lente. O efervescer da noite carioca e a cruzada pelo estado de São Paulo estão pareadas às torres londrinas.

Paisagens de uma primavera se espalham pelas Cenas de Abril (1979), quadros de um cotidiano em emotividade, repleto de aventuras à bordo, transbordando a recordação afetiva e artística. Nos últimos adeus e nas páginas esparsas, Ana ancora no suspiro das imagens em excesso e das associações inusitadas.
“e na deck chair
ainda te escuto folhear os últimos poemas
com metade de um sorriso”
Em Correspondência Completa (1979), a autora entrega uma narrativa breve. A carta às avessas oferece uma prosa ácida. Mais um toque da renovação do uso de gêneros textuais inusitados à literatura e da distorção no retrato da vida banal. “Penso pouco no Thomas. Passou o frio dos primeiros dias. Depois, desgosto: dele, do pau dele, da política dele, do violão dele.”
O subjetivo penetra a força contida de Luvas de pelica (1980), a prosa poética desenrola entre figuras imagéticas. O olhar é elevado, Ana Cristina nos apresenta o mundo por suas lentes. As palavras atravessam o jogo hábil. Golpeiam o leitor, o tapa com luvas de pelica. As lembranças repletas de sentimentalismo e reflexões sobre o fazer poético atingem a máxima, pairando em A teus pés (1982), título que supõe o interlocutor, em um diálogo típico da potente voz de Ana C. Os tempos dançam à melancolia, a saudade e a recordação fazem par com o agora, presente suspenso da poesia.
Efervescendo ao máximo em A teus pés, as cenas banais construídas poeticamente por Ana Cristina César adquirem sentido ao fundir-se com as emoções, de modo que a emotividade é exposta, revelando-se em camada, sustentada pelo intimismo e pela sutileza da escritora que eleva sua força poética ao convidar o leitor à visitar suas cenas e sentimentos ardentes que ebulem em meio ao minimalismo de elementos ínfimos.
Ana Cristina Cesar acompanha a liberdade editorial de sua geração, a produção literária da escritora é composta majoritariamente por papéis esparsos escritos durante a década de 70. Ainda assim, Ana questiona a criação marginal. Em matéria para a IstoÉ, nomeada “Muito riso, muito siso”, afirma que na época não era mais possível a “produção marginal inocente, de pequeno circuito”. Cercada de nomes da linha cultural avançada do país, como Cacaso e Maria Padilha, chega a indagar Leminski sobre os moldes independentes.
Gêneros de destaque dentro da literatura de Ana C, cartas e diários eram vistos pela autora como criação essencialmente feminina, arraigada na intimidade e no âmbito particular, projetando um confidente. Na ótica da escritora, o cuidado com a interlocução é característico da literatura produzida por mulheres. As inquietações de um eu lírico feminino estão a todo vapor na poética da carioca. Ela brinca com as barreiras da confidência e da ficção, recriando a subjetividade íntima. Aí está a armadilha de Ana Cristina Cesar.
Na última década, a obra da autora carioca vêm conquistando novos discípulos. A homenagem na FLIP de 2016 colocou destaque na poeta, e na própria poesia, no maior evento literário do país. Os holofotes também são fruto da profusão de mercados editorais independentes que dialogam com à moda marginal e a reedição pela Companhia das Letras de A teus pés e Poética, antologia completa da escritora, lançada em 2013 na ocasião de duas décadas de sua morte. Não se enganem, ela ainda se faz presente; em seus escritos esparsos, convite para uma espiada, e nas leituras de seus instantes capturados. A curta passagem de Ana C pela literatura brasileira pode ser definida como uma participação especial. Digna de premiações, os métodos editoriais da geração mimeógrafo contribuem para a posição à margem e alternativa da autora. Entretanto, ela rouba a cena.
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