Redescobrindo um dos livros mais espirituosos já escritos
- Bruno Pernambuco
- 9 de jun. de 2020
- 6 min de leitura
\\ ESPECIAIS
Isso não quer dizer que todos os romances, ou mesmo a maioria deles, deveriam, ou sequer poderiam, ser tão engenhosos e brincalhões quanto é esse Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas certamente não faria mal que pelo menos alguns permitissem ao menos uma risadinha
Por Dave Eggers*

A esperteza atravessa séculos e hemisférios. Ela não empoeira e, quando é bem feita, não envelhece. “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, é um excelente exemplo disso. Esquecido pelo grande público, o livro do autor brasileiro é um dos mais sagazes e mais brincalhões já escritos, e é, assim, um dos mais vivos e eternos. É uma história de amor- várias, de fato- e também uma comédia de classes, e dos costumes, e do ego, e é o espelho de um país e de um tempo, e um olhar destemido para a finitude da vida, e, além de tudo, é uma exploração íntima e cheia de êxtase do próprio ato de escrever. É uma obra-prima jubilante, e sua leitura traz uma alegria incontrolável, mas, injustamente, quase nenhum leitor contemporâneo, nos países de língua inglesa, a conheceu.
Ainda assim ele sobrevive, e deve ser lido, pela música de sua prosa e, sobretudo, por sua deliciosa invenção formal. Uma nova tradução, recém-lançada nos Estados Unidos, por Flora Thompson-DeVaux, é um grande presente a todo o mundo- porque o texto cintila e canta, porque é tremendamente engraçado, e porque consegue de alguma forma traduzir o tom inimitável de Machado, ao mesmo tempo mordaz e melancólico, romântico e autodepreciativo. O narrador, Brás Cubas, está morto. Ele narra, desde o túmulo, a história da sua vida, e talvez por, morto que está, nao ter nada a perder, ele a conta exatamente do jeito que quer, sem ligar para a norma. O romance se desenrola em capítulos curtos e brilhantes, ainda mais avivados pela incessante auto-referencialidade e pela dúvida. “Começo a arrepender-me deste livro”, escreve Brás Cubas no capítulo “O Senão do Livro”. “Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade.”
A história contada, em linhas gerais, é bastante comum, um triângulo amoroso da aristocracia novecentista. Brás Cubas perambula na margem das classes abastadas do Rio de Janeiro, mas lhe faltam a vontade de casar (a obsessão de sua irmã) e a ambição de sair galgando postos governamentais (a vontade de seu pai). Ele foge da oportunidade de se casar com a linda Virgília, e de ser com isso jogado na vida pública por seu pai. É só quando um cavalheiro de boa família, chamado Lobo Neves, toma a mão de Virgília e a guia de seu pai que Brás Cubas começa a se atrair pela moça. Eles passam a ter um caso, tentando- sem muito esforço, a bem da verdade- escondê-lo do corno manso com quem Virgínia divide o matrimônio. Logo toda a alta sociedade do Rio parece saber do caso, e o perigo da descoberta faz apenas com que os dois amantes sintam-se cada vez mais atraídos.
Enquanto isso, Brás Cubas contempla, desde a lápide, o sentido da vida, junto de seu amigo Quincas Borba, que tenta popularizar uma filosofia chamada de humanitismo, pensada, como diz Machado, “para arruinar com todos os outros sistemas”. Trata-se, essencialmente, de uma fé na justeza de cada ser humano. Brás Cubas sabe quão panglossiano é esse pensamento, mas encontra um conforto nessa crença radical de que aos humanos deveria ser autorizado fazer tudo que os humanos naturalmente fazem; de que tudo que fazemos é aquilo que deveríamos fazer- especialmente no que cabe a fazer ainda mais humanos. “O amor, por exemplo”, escreve Machado, “é um sacerdócio, a reprodução um ritual. Como a vida é o maior benefício do universo (...) segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma ocasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente só há uma desgraça: é não nascer.”
Machado muda com muita tranquilidade entre a história de amor que define a narrativa e seus interlúdios metafísicos, pelo menos em parte pois, embora o livro seja sobre assuntos muito diretos- o amor; a vida, ela mesma; a finalidade trazida pela morte- ele nunca se leva a sério. No capítulo IV, “A Ideia Fixa”, Machado começa a traçar uma grande analogia, comparando as menores aventuras humanas àquelas grandes obras, que ecoam pelas épocas. “Mal comparando, é como a arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castelã… Não, a comparação não presta”. Mesmo os títulos dos capítulos são surpreendentes. Um deles, apropriadamente chamado de “Triste, mas Curto”, é seguido de “Curto, mas Alegre”, que realmente é ambos. Um capítulo é dedicado exclusivamente a botas, outro às pernas do autor, outro, ainda, é intitulado “Que Não é Sério”. O capítulo CXXX chama-se “Para Intercalar no Capítulo CXXIX”, e no final dele o autor sugere que o insira entre a primeira e a segunda oração do capítulo anterior. Também há no livro uma demorada alucinação, envolvendo um hipopótamo.
Estranhamente, nenhuma das piadas ou das invenções intertextuais diminui o poder da história que é contada. O romance entre Brás Cubas e Virgínia é bastante convincente, e fortemente lírico. Nosso compadecimento do pobre Lobo Neves é verdadeiro, e o crime que o narrador e Virgília lhe impõem nunca é punido- nem em vida nem em morte. Essa é a chave para a obra. Trata-se de um livro ateu, em que não existe juiz exceto pela própria consciência de um narrador, e onde o criminoso é deixado só, numa caixa rodeada de vermes, recontando sua vida e seus fracassos sem qualquer consequência transcendental. É, também, um livro extremamente engraçado. É completamente original, e sem par em sua estranheza, exceto pelas muitas obras posteriores que, conscientemente ou não, dele se serviram.
O leitor é uma espécie que sofre de amnésia, e, de década em década, nós subitamente acreditamos que um autor se dirigindo diretamente ao leitor, ou brincando com a forma literária, ou incluindo, dentro do livro, referências ao autor ou à própria obra, é uma grande novidade, e que deveria ser definido como “pós alguma coisa”, ou como “metalinguístico”, ou como qualquer que seja o próximo termo redutor e mal-utilizado que venha a aparecer. O fato é que muitos dos clássicos da literatura mundial se utilizaram dessas técnicas “meta” ou “pós”. Isso começa já em Cervantes, que autorizou Dom Quixote e Sancho Pança, no segundo livro, a saberem que eram personagens no primeiro. O Cândido, de Voltaire- a quem Machado muitas vezes referencia- é interminavelmente consciente de si, e Thackeray, em “A Feira das Vaidades”, faz tantas referências à presença do autor, e à omnisciência e a poderes superiores, que é impossível para o leitor conta-las. Joyce e Austen, e Nabokov, e Stern- também citado por Machado- e Stein, e Pessoa, e muitos, muitos mais experimentaram com a forma do romance, jogaram, questionando sua própria autoridade como autores e pondo em jogo suas experimentações, e, brincando com esse tríplice relacionamento entre autor, leitor, e a obra ela mesma, fizeram da forma literária sempre renovada e surpreendente- e, assim, a mantiveram viva.
Mas agora a coisa é outra. Agora estranhamente, tão estranhamente, vivemos num tempo de profundo tradicionalismo na literatura, e é difícil dizer porque. Eu tive o prazer, alguns anos atrás, de participar como juiz em um concurso que definiria qual o melhor romance daquele ano, e o comitê do qual fui parte inesperadamente se divertiu muito com o trabalho. Eram tantos, tantos livros brilhantes! Mas, dos quatrocentos e tantos romances americanos que naquele ano nos foi pedido ler, só alguns poucos eram, realmente, engraçados, menos ainda pode se dizer que eram engenhosos, e eu contei exatamente duas obras que se poderia efetivamente chamar de experimentais. Se isso não é um sinal de um medo, geral, do novo, de uma hesitação em experimentar, e de um surpreendente, e mal-aconselhado, auto-respeito do romance, então eu não sei o que é. Isso não quer dizer que todos os romances, ou mesmo a maioria deles, deveriam, ou sequer poderiam, ser tão engenhosos e brincalhões quanto é esse Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas certamente não faria mal que pelo menos alguns permitissem ao menos uma risadinha- dos personagens, leitores, ou mesmo dos próprios autores. Negar as piadas, e a piada suprema que a própria vida é, é triste demais./TRADUÇÃO DE BRUNO PERNAMBUCO
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*(Foi lançada este mês [junho de 2020], nos Estados Unidos uma nova tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas, pela Penguin Classics, assinada por Flora Thompson-DeVaux. Um imenso sucesso, a edição se esgotou em um dia, estando o livro indisponível, da escrita desse artigo, na Amazon e no site da Barnes & Noble. O ensaio a seguir, em que Dave Eggers, escritor norte-americano, reflete sobre a narrativa machadiana e sobre as inovações que Memórias Póstumas traz à literatura, está presente na edição americana, e foi, também, publicado no site da The New Yorker. [disponível em https://www.newyorker.com/books/second-read/rediscovering-one-of-the-wittiest-books-ever-written])
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