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No Dia Internacional do livro, relembramos a importância dos clássicos para autores contemporâneos

  • Foto do escritor: Frentes Versos
    Frentes Versos
  • 23 de abr. de 2020
  • 4 min de leitura

\\ ESPECIAIS


Como a leitura de obras que atravessam os séculos mantém, hoje, escritores atualizados sobre como se embrenhar na narrativa


Por André Vieira e Matheus Lopes Quirino

Babel. Pintura de Miahay Bodó sobre a biblioteca homônima.

Qual é a importância que damos a um livro? Por quais olhos insones e por quais mãos hirtas essas frases, linhas, folhas, capas e encadernações foram rigorosamente lavradas, marcadas e analisadas antes de chegarem claras e inteiriças a novos pares de olhos e dezenas de dedos? E, principalmente, qual é a importância de um(a) autor(a)? Aquele que se furta do cotidiano caótico, do dissabor do labor e das próprias inquietações da alma, para se desafiar em sua cruzada íntima, contando ao leitor sobre o tempo que viveu e que não viveu, sobre a utopia do passado e o caos do futuro, sobre revoluções invisíveis e silêncios ensurdecedores: sonhos possíveis de realidades distantes. Assim, neste Dia Internacional do Livro, Frente & Versos ouviu os escritores Emilio Fraia e Javier Arancibia Contreras, perguntado quais livros marcaram suas vidas e porquê.


Em meio à sua escrivaninha bagunçada, geralmente, à meia-luz ou à meia-penumbra, acompanhado(a) por um líquido sólido a seu lado, o escriba comete os piores crimes descritos pela humanidade: regam a si próprios, a seus pais, amigos e filhos o desejo furtivo de se perder no ócio, e necessidade imperativa de não fazer nada. A fim de transformar vozes difusas, pensamentos avoados e sentimentos opacos, mesmo quando estão vívidos e pungentes, em prosa e poesia, lápis e papel linguagem e ritmo, corpo e alma em receptáculos próprios encarnados e encarnados, essas criaturas renegam a viver indefinitivamente em função “eu” e dos “seus”, em função da celebração de “Nós” como criadores de nossos próprios caminhos e descaminhos.


Crocodilo. O autor Javier Contreras - Foto - Divulgação/O Globo


E nesse périplo que lembramos do protagonista de O Estrangeiro, de Albert Camus, quando Javier Contreras relembra o encontro, ainda jovem: “Eu tinha 16 anos quando aquela existência comezinha e tradicional de Mersault se transformou em uma jornada de contornos profundos, isso me acachapou muito na época e ainda hoje. O julgamento moral de um homem sem ambições pela sua indiferença em relação ao mundo é algo passível de debates em todos os tempos.”

O clássico de Camus, de fato, mantém-se atual, colocando em xeque papéis que no mundo real muitas vezes são incontestáveis, como a própria justiça.


No livro, vê-se que nada é tão sólido ou duradouro, quando o protagonista se vê envolto em reflexões acerca de si, da própria justiça, questionando o sistema como um todo, e mais: a filosofia do qual ele é constituído. Nisso, a forma do romance contribui para se chegar a conclusões mais rápido -- se elas existirem. Para Contreras, foi um despertar “Em relação à narrativa, a maneira com que Camus conta a sua história de maneira curta e simples e ao mesmo com uma profundidade filosófica em meio a cada frase permeia completamente minhas ambições enquanto escritor. Uma escrita concisa, segura e profunda que privilegie a história e a fluidez do leitor.”


Sobre questões de forma, outro autor em ascensão, o contista brasileiro que teve um dos contos de seu livro Sabastopol publicado na prestigiada revista The New Yorker, Emilio Fraia ressalta a importância e a precisão com que se empregam as palavras, relembrando um clássico da literatura francesa: Para mim, o ‘Três contos’, do Gustave Flaubert, na tradução do Samuel Titan Jr. e do Milton Hatoum é um livro essencial. Tudo sobre clareza, simplicidade e precisão está ali. Foi o livro que me ensinou que uma história é feita, sobretudo, de palavras. E que o mundo interior das ideias e sentimentos pode encontrar correspondência no mundo exterior dos lugares e objetos”.



Autor deSebastopol, o escritor Emilio Fraia. Foto - Divulgação/ed. Globo Condé Nast

Duas narrativas que cercam profundos sentimentos do que é ser humano, com todos os percalços, dúvidas e sofrimentos que esperam o homem desde que este nasce até suas mortes durante a vida, os autores de Crocodilo e Sebastopol, respectivamente, Contreras e Fraia, sabem conduzir o leitor para situações inesperadas, que envolvem o leitor em uma espécie de cadafalso. Muitas vezes ele o escolhe, como quando tiramos um livro da prateleira da livraria e o levamos para casa.


Assim, o Dia do Livro, mais do que homenagear o trabalho árduo da produção editorial e autoral, coloca em questão a importância de como o conhecimento, a informação, e nossos valores como comunidade são compartilhados, transmitidos e herdados via o contato com a tinta e o papel. À espera e à espreita que alguém toque vidas, reacendendo chamas cada vez que se abre um livro diferente. Nossa história volta a ser recontada, manuseada e reinterpretada por outros pares de olhos e outro dueto de mãos que não as nossas, mas, de algum modo, no meio do cadafalso, nos encontramos ali.


Sobre o dia do livro


Instaurado inicialmente pelo governo catalão na Espanha, em cinco de abril de 1926, a fim de comemorar o nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes, o Dia Internacional do Livro tinha como intuito a promoção nacional de obras na língua catalã e espanhola e a rememoração do legado pelo cânone do país. No entanto, a data comemorativa como conhecemos e celebramos hoje remonta 1995, quando a Unesco, braço da Organização Nações Unidas destinado ao fomento da educação, ciência e cultural mundial, internacionalizou o evento, transferindo-o para 23 do mesmo mês, com o propósito de não apenas rememorar a morte do escritor espanhol, mas também colocar no rol de homenageados o homem de letras catalão Josep Pla e o cânone inglês, William Shakespeare*.


*Leia mais sobre no texto "Shakespeare Universal", escrito por Bruno Pernambuco.


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