Ensaio Um teto todo seu de Virginia Woolf dialoga com escritoras brasileiras do século XX
- Giovana Proença
- 17 de jun. de 2020
- 7 min de leitura
Atualizado: 25 de jun. de 2020
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As palavras de Virginia Woolf em seu renomado ensaio Um teto todo seu apontam as relações entre mulheres e ficção - e se reproduzem no meio literário brasileiro
Por Giovana Proença

Um dos principais nomes do Modernismo, Virginia Woolf não é vanguardista apenas nos círculos literários. A escritora inglesa seria responsável por antecipar ideias que viriam à tona décadas após sua morte. Criada em um ambiente de estímulo a intelectualidade, a nascida Adeline Virginia Stephen estava estrategicamente em meio ao Grupo de Bloomsbury, posicionada entre artistas e escritores que revolucionariam mais do que arte, estendendo sua influência a temas sociais, como o feminismo.
Virginia Woolf acompanhou a conquista de direitos essenciais às mulheres, com o sufrágio, aprovado em 1918 na Inglaterra, êxito que chegaria ao Brasil com uma década de atraso. Nascida no final do século XIX, a escritora testemunhou a emergência de ideais circulantes de uma nova geração burguesa em ascensão no período da Grande Guerra. As mudanças em turbulência de seu tempo conferiram a Virginia uma visão privilegiada dos impactos da primeira onda do feminismo. A clássica autora inglesa ultrapassou a ótica de seu período, vislumbrando em antecipação temas que retomariam na segunda onda do feminismo, passada entre as décadas de 1960 e 1970.
Em seus livros, que incorporam o espírito modernista e a fragmentação do sujeito no período pós-Primeira-Guerra, Virginia Woolf coloca em questão motes como as relações conjugais: a arte feminina e os papéis de gênero no geral. Para além da prosa impressionista marcada pela interioridade e pelos fluxos de consciência, o lado ensaísta de Virginia Stephen se sobressai. Os conceitos atingem a tônica máxima em Um teto todo seu, ensaio de teor feminista no qual a escritora apresenta imagens e concepções relacionadas às mulheres e à ficção.
Considerado um dos textos mais icônicos do século XX, Virginia Woolf é categórica: para uma mulher escrever ficção ela precisa se dispor de condições financeiras e um teto todo seu. Ainda que a tradução mais aceita no mercado editorial brasileiro condicione o título “Um teto todo seu”, o termo quarto em substituição a “teto” confere contornos interessantes ao ensaio, defendendo um espaço propício à criação, mas ainda integrado a um sistema habitacional comum que propicie a interação.
Publicado pela primeira vez em 1928, o ensaio é a condensação de palestras da escritora, que reconhece a abrangência, a abstração e as variadas interpretações resultantes de se pensar sobre mulheres e ficção. Em um célebre insight, Virginia cria a imagem da irmã fictícia de Shakespeare — e apresenta as razões para seu derradeiro fracasso no século XVI. A liberdade física e imaginativa estão condicionadas à liberdade econômica pela ótica da compositora de Um teto todo seu, o dinheiro se eleva como principal fator.
A repressão feminina e hostilidade nos ambientes artísticos são sintetizadas, à época nada era esperado intelectualmente das mulheres. A voz de Tansley criticando a qualidade artística feminina, em frente à pintora Lily Briscoe, uma das principais personagens de Virginia Woolf, em O Farol, reverbera em eco por séculos de exclusão. A voz ensaística de Woolf transita em olhar atento por cenas londrinas enquanto perpassa as eras da ficção feminina. O século XIX é um momento decisivo – as mulheres tinham pela primeira vez um cômodo para sentar e escrever. Nesse contexto emergem dois nomes que ainda retomarei nesse escrito: Jane Austen e Emily Brontë.
Ao refazer os moldes de Virgina Woolf dentro da realidade literária brasileira, “Um teto todo seu” nos deixa duas principais impressões. A independência econômica e a importância do dinheiro para a mulher escritora e, um questionamento de impactos arquitetônicos: Quais as condições necessárias para a produção artística?
Se Jane Austen e Emily Brontë gozaram do reconhecimento da qualidade de suas obras, nossas escritoras do século XIX e do início do século XX ainda permanecem sem visibilidade. Pouco se fala em nossa primeira romancista negra, Maria Firmina dos Reis e seus ideais abolicionistas que refletem em Úrsula. Uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, Júlia Lopes de Almeida permanece fora dos holofotes, colocada para escanteio em esforço de uma Acadêmia Brasileira de Letras(ABL) exclusivamente masculina em sua formação. Cora Coralina, pseudônimo que remete ao coração de poeta, só publicou seu primeiro livro passados seus setenta anos. A autora teria sido impedida pelo marido de participar da Semana da Arte Moderna em 1922.
A sorte feminina na literatura brasileira só mudou de curso com Rachel de Queiroz, primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Filha de intelectuais, Rachel pode ser lida como o resultado de uma mulher com ambiente para exercício da escrita. Ainda assim, estreou com o pseudônimo Rita de Queiroz. Entretanto, Cecília Meireles é considerada a titular da primeira grande voz feminina brasileira. A autora combateu o uso do termo “poetisa”, para inferiorizar a poética feminina, intitulando-se poeta.
A relevância da tese de Virginia Woolf - um cômodo e condições financeiras para exercício da escrita- atinge maior potência na análise da literatura feminina do Brasil da segunda metade do século XX, com a eclosão de mulheres sendo reconhecidas por sua qualidade literária. Nossas principais escritoras, que mais do que apenas reconhecimento, alcançaram a aclamação pública, têm um perfil específico: foram capazes de ultrapassar as barreiras que limitava o papel de gênero ao adentrar ambientes acadêmicos. Para isso tiveram condições , o estudo fez parte da formação de nossas autoras. Outra não coincidência; vinham das camadas econômicas mais altas.
Nélida Piñon, premiada escritora que já presidiu a Academia Brasileira de Letras, formou-se em Jornalismo pela Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ana Cristina Cesar, musa da poesia marginal, também veio da PUC, incentivada desde criança a propagar seus versos, ditados à mãe. Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst são franciscanas natas, seguindo a tradição de êxito da Faculdade de Direito do Largo São Francisco na formação da trajetória literária brasileira. Nossa maior escritora viva, Lygia, filha de um promotor e de uma pianista, teve seu primeiro livro de contos financiado pelo pai, ainda jovem. Para além, ela colaborou para jornais vinculados à faculdade e teve contato com nomes de peso do modernismo brasileiro como Oswald de Andrade e Mario de Andrade.
Hilda Hilst elevou o conceito de “Um teto todo seu” ao nível literal. A escritora construiu a Casa do Sol, seu templo de criatividade, nas proximidades de uma figueira do terreno de sua mãe em Campinas. Era filha de Bedecilda Vaz Cardoso, que levava um estilo de vida emancipado para época, e do fazendeiro, poeta e jornalista, Apolônio de Almeida Prado Hilst. Essencialmente ligado à literatura, o pai foi apontado por Hilda como a razão de ter sido escritora. Trafegando entre a elite paulistana em um estilo de vida cosmopolita regado a viagens internacionais, roupas de grife e jantares suntuosos, a escritora estreante gozava de certa independência e autonomia, em meio à boemia majoritariamente masculina de sua juventude. Hilst decidiu abandonar a intensa vida social na metrópole em ascensão em recolhimento na Casa do Sol para dedicação exclusiva à produção artística.
Nossa Clarice, lendária evocada pelos adeptos de sua literatura, nos permite um exame cirúrgico. Nos anos de formação, a família Lispector beirava a pobreza iminente. Mas Pedro Lispector era um homem avançado, as filhas foram educadas na maior instituição de ginásio de Pernambuco. Teve condições de entrar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, adentrando um ambiente predominantemente masculino. Clarice passou a trabalhar como jornalista - a presença feminina nas redações também era algo incomum para a época - com a influência de Lourival Fontes. Em Clarice, Benjamin Moser escreve que ela passava a maior parte de seu tempo em seu quartinho, estudando e escrevendo. Tinha um teto todo seu e estava imersa ao ambiente intelectual.
Após o casamento, Clarice Lispector era uma mãe e dona de casa de classe média. Ainda sofreu com as reduções de uma literatura dominada por conceitos patriarcais, era considerada “literatura para mulheres”. O microcosmo dissecado por Lispector era invisibilizado. Os méritos da universalidade e da complexidade de obras como A paixão segundo G.H só foram redescobertos pela crítica anos depois. O misticismo da escritora, de nome estrangeiro e moradia no exterior – acompanhava o marido diplomata – promoveu seus livros lançados no Brasil. Em sua residência, tinha ajuda na manutenção do lar e no cuidado dos filhos, dedicava-se à escrita. Mais uma vez, tinha um teto todo seu.
A aplicação da essência de Woolf na literatura feminina da segunda metade do século XX ganha força ao estudar o caso Carolina. Carolina é Carolina Maria de Jesus. Moradora de uma comunidade paulista, sustentou os filhos com a função de catadora de papéis. Uma das primeiras autoras negras publicadas no Brasil, apesar de sua importância e dos êxitos de sua principal obra, Quarto de Despejo (1960), a ascensão logo sucedeu a queda. Somado ao impedimento da conclusão escolar e ao constante confronto com a fome, Carolina foi usada por seu sucesso e colocada em esquecimento pelo mercado editorial, sendo recolocada na posição de catadora. O reconhecimento viria tardio.
Se com as barreiras Carolina conquistou um posto no cânone, questionamos o que alcançaria com um teto todo seu e condições financeiras. Mais ainda, quantas Carolinas não vislumbraram nem um feixe dos holofotes? Se Virginia Woolf diz que não se pode pensar, amar e dormir bem, se não comer bem; Carolina repercute sua própria experiência “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.” A fome é amarela e dói... dói muito.
As palavras de Virginia Woolf em seu renomado Um teto todo seu apontam as relações que se estabelecem entre mulheres e ficção, se reproduzem no meio literário brasileiro, identificando nossas particularidades de reconhecimento tardio de nossas escritoras e perpetuação da exclusão de ambientes acadêmicos e intelectuais. Voltando-se para a segunda metade do século XX, as autoras que adentraram os pilares predominantemente masculinos eram norteadas por dois fatores: as condições financeiras propícias e o teto todo seu - representação para um espaço seguro ao ambiente da escrita, que pode se estender ao incentivo à literalidade (muitas contavam com o apoio familiar e encorajamento aos estudos).
Muito lamento pelas palavras silenciadas das nunca ouvidas mulheres invisíveis que não tiveram um teto todo seu para desenvolver a autoria. Para o século XXI, muito animador é a abertura do mercado editorial e dos meios literários para novas vozes heterogêneas que vêm ocupando as prateleiras da literatura contemporânea. Posso ver o sorriso delineado de Virginia Woolf, na Londres dos finais do anos 20, ainda maior que o meu próprio ao constatar as cores verde e amarelo que ganham força nas ideias universais de uma visionária.
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