Diferentes modos de se morrer uma morte rubra
- Tomás Fiore Negreiros
- 10 de mai. de 2020
- 15 min de leitura
Atualizado: 8 de jul. de 2020
\\ ESPECIAIS
No nosso atual contexto de Morte Rubra, podemos afirmar o quanto quisermos que é um vírus não-identitário e que o poder de matar foi democratizado. Mas isso não faz com que nos vejamos fora das relações de desigualdade estruturais da nossa sociedade.
Por Tomás Fiore Negreiros

Recentemente vi em minhas mãos (mais especificamente, na tela do meu computador) um conto de Edgar Allan Poe chamado “A Máscara da Morte Rubra”. Não precisei ler muito para estranhar (ou talvez me familiarizar) com a atualidade do texto e suas relações com nossa atual situação pandêmica.
Escrito em 1842, em decorrência do falecimento de sua esposa Virgília, vítima de tuberculose, “A Máscara da Morte Rubra” se dá em um cenário epidêmico, no qual uma doença assolou todo um país, dizimando grande parte da população. O nome da doença era Morte Rubra.
Sua sintomatologia? “O sangue era seu avatar e seu sinal — a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.”
Temendo por sua vida e a dos membros de sua corte, o príncipe daquele país, ironicamente nomeado como Próspero, encerrou-se com seus escolhidos em uma abadia fortificada. A sua nova residência era abastecida e confortada com comida farta, bebidas a vontade, música, bailarinos, orgias e todo tipo de entretenimentos que poderiam ter para ignorar a peste que afligia os demais cidadãos.
No 6º mês de “quarentena seletiva”, o príncipe Próspero decide-se por realizar um baile de máscaras em sua gigante fortaleza. A decoração de cada um dos sete salões do palácio foi regida por uma cor específica. Em todos os salões os convidados festejavam e desfrutavam das atrações. Todos exceto o sétimo salão, que era evitado por conta da fúnebre atmosfera vermelho-sangue criada pela mistura da sua decoração preta com a luz do fogareiro que iluminava o cômodo.
Não diferente das demais noites no palácio, o baile foi suprido de comidas e bebidas à vontade, além de contar com músicos que tocavam a noite toda. O único momento em que a música parava era quando um grande relógio de ébano, situado no salão vermelho-sangue, marcava o início de uma nova hora; era neste momento que o relógio vibrava um som que constrangia a todos e fazia com que a banda parasse. Ao fim do primeiro minuto de cada hora, o relógio emudecia e a atmosfera festiva do baile retornava.
No meio daquele baile onírico e surrealista, a veste de uma nova figura destoou dos demais convidados: trajando roupas borrifadas de sangue e manchas escarlate no rosto, o intruso trouxe incômodo e estranhamento para o baile; aterrorizando não só os convidados, como também o príncipe Próspero.
Decidido a fazer a figura macabra pagar por estragar seu baile, o anfitrião toma de um punhal para enfrentá-lo. Diante de todos os convidados horrorizados, Próspero atravessa os salões até alcançar a sala vermelho-sangue, onde tem seu encontro com o invasor.
Ouve-se um grito no salão evitado, o príncipe jaz ferido e morto no chão. Os convidados correm para o aposento e rapidamente notam que a figura não usa máscara ou fantasia: estavam diante da Morte Rubra personificada. Todos caem mortos no chão. “E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo.”
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Como as demais obras de Poe, a relação entre ser humano e a morte parece ser uma das temáticas centrais em “A Máscara da Morte Rubra”. Diante da grande peste que assola o país e tira milhares de vidas, o príncipe Próspero constrói uma abadia fortificada para que ele e seu grupo de seletos pudessem viver “imunes” à Morte Rubra e, por consequência, à possibilidade da morte.
Não é necessário muito para concluir que o príncipe falha em sua missão: a Morte Rubra entra na abadia, o príncipe morre, os convidados morrem, os músicos morrem, todos morrem … são seres humanos, são todos mortais. Mais do que isso, o conto nos alerta sobre a impossibilidade de se evitar a morte.
Tal interpretação sobre o conto reverbera em consonância com o pensamento do filósofo Martin Heidegger (1889-1976) a respeito da finitude humana. Não é o objetivo deste texto elaborar uma interpretação do conto fiel ao pensamento heideggeriano ou se aprofundar muito nos termos desenvolvidos pelo autor alemão. Contudo, é importante elucidar a compreensão do filósofo a respeito da morte como a nossa possibilidade mais própria, irremissível, certa, indeterminada e insuperável; uma vez que tal compreensão possibilita que tenhamos uma noção mais ampla sobre os sentidos e significados presentes no conto.
Retornado ao texto de Poe, ao fechar-se em sua abadia com os demais membros da sua corte, Próspero não queria apenas fugir da peste. Ele queria também fechar os olhos para a verdade que a Morte Rubra escancarava para todo país: a verdade sobre a nossa condição humana como entes finitos e mortais.
Não digo aqui de uma finitude generalizada e abstrata que diz respeito a todos e, por consequência, a ninguém; mas me refiro a finitude de cada um, que marca a existência de cada um enquanto ser humano. É justamente por ser este ente marcado por um fim, por uma morte, que posso dizer que eu sou um ente temporal: caso fossemos imortais, não haveria temporalidade a ser determinada a partir do seu fim, ou melhor, do nosso fim.
Próspero trancou-se em sua abadia na esperança de fugir à verdade; sua própria verdade, trazida à luz pela Morte Rubra. Trancou-se e fez com que os músicos tocassem alto, tão alto que não poderia ouvir os suspiros e lamentações dos além muros. Trancou-se em uma abadia abastecida de comida, bebidas e prazeres; onde fantasiava nunca ter de deparar-se com a fome, o tédio, a falta, ou o vazio.
O que Próspero não sabia é que nem as paredes mais grossas das abadias mais altas são capazes de nos eximir de nossa condição existencial como entes finitos; como entes que podem adoecer, que podem se ferir, que não dispõem de uma temporalidade infinita. Por mais que tentemos, a morte sempre vai ser uma possibilidade certa; assim como sempre continuaremos existindo no tempo.
Podemos nos utilizar dos melhores entretenimentos, dos músicos mais habilidosos, das comidas mais saborosas … o relógio de ébano vai continuar vibrando de hora em hora, lembrando a todos que existe o tempo, que existimos no tempo, que não somos infinitos. O relógio toca e todos ficam constrangidos, a música para, o ambiente emudece, todos são obrigados a olhar para si mesmos.
É nesse breve momento, nesses 60 segundos que parecem eternos, que os convidados do baile se angustiam perante o chamado do tempo. Momentaneamente, eles se angustiam e experimentam o completo estranhamento perante o mundo, perante os significados e sentidos que acreditavam determinar suas existências. “Um dia vamos morrer. Não! Um dia EU vou morrer. O que eu estou fazendo aqui? Por que eu vim parar aqui? Por que algo que parecia tão certo agora já não me diz respeito nenhum?”. Ao fim dos 60 segundos, o chamado do relógio emudece, os convidados retomam às festividades, retomam suas antigas “certezas”.
Indo um pouco além, ao tentar colocar a Morte Rubra para fora da sua abadia, Próspero fantasiava ver-se livre daquilo que Heidegger descreveu como a responsabilidade com o seu próprio ser. Responsabilidade esta que se dá justamente por não termos nenhuma determinação ou essência prévia, fazendo com que tenhamos sempre de lidar com o ser que é nosso.
Sendo assim, ao não reconhecer a morte como sua possibilidade mais certa e insuperável, o príncipe também não reconhece a sua responsabilidade sobre tudo que é determinado por sua finitude; isto é, seus modos de ser, suas escolhas, e todas as possibilidades que marcam o seu existir temporal. Ao relacionar-se assim com sua finitude, Próspero não deixa de ser finito ou responsável pelo seu ser. Mas ele mantém uma lida distante com tais condições, como se sua existência não lhe dissesse respeito.
Esta breve análise foi descrita, com mais profundidade e embasamento, no livro “Pesquisa Fenomenológica e Hermenêutica: cinema, arte e literatura”, do professor Marcos Colpo, que transcreveu a interpretação em questão a partir de um trabalho realizado pelas alunas Clarice Ursini, Kênia Rodrigues e Samanta Tibério. Parto desta interpretação para estabelecer alguns paralelos entre o conto e a forma como experienciamos a atual Morte Rubra, o Coronavírus, em nossos modos de vida.
O que podemos compreender a partir da desventura do príncipe Próspero, é que, assim como a Morte Rubra, a atual pandemia evidência aquilo que muitas vezes não queremos nos defrontar: nossa condição como entes finitos e a responsabilidade que cada um tem pelo seu próprio existir. Desse modo, a minha morte, que na maioria das vezes é tida como uma possibilidade longínqua e abstrata, pode parecer-me agora como uma possibilidade mais próxima do meu existir.
Importante colocar desde o início que não sugiro, de forma alguma, a flexibilização das políticas de distanciamento social ou estratégias de prevenção de contágio. Não partilho de nenhum desejo suicida de aproximação da morte para uma suposta “intensificação da vida”. Apenas busco refletir sobre algumas possíveis consequências da pandemia que enfrentamos.
Mais do que trazer a minha possibilidade de morte para um horizonte próximo, a crise em que nos encontramos desvela a fragilidade de muitos dos significados e sentidos que sustentam nossa sociedade; Implodindo aquilo que nos habituamos a chamar de “cotidiano”.
Mesmo o que acreditávamos distante, se não impossível, passou a se tornar a realidade em que nos encontramos. Afinal, como um ser tão pequeno e “não-vivo” quanto um vírus pode causar tantos sofrimentos e estragos em uma sociedade tão desenvolvida, cientificizada e tecnológica quanto a nossa?
Pois é, o vírus tira vidas, quebra economias, destrói planos, gera crises, interrompe todo um cotidiano e lógica de sociedade. Em uma questão de semanas, parte dos meus planos foram adiados, compromissos cancelados, espaços onde frequentava foram restringidos, assim como a minha locomoção pela cidade foi limitada… Do plano macro ao micro, a pandemia nos mostrou como tudo pode mudar de um dia para o outro, como os momentos são efêmeras e mutáveis, como somos suscetíveis e marcados pela possibilidade de morrer.
Cabe ressaltar que não estou falando que o vírus é a causa de todo esse quadro catastrófico. É sempre importante atentarmos para não atribuir ao vírus, um agente biológico externo, o papel de causa de uma crise que parece ser inerente ao próprio funcionamento da máquina capitalista e consequência de anos de adoção de políticas neoliberais em diversos campos.
Entretanto, podemos compreender o COVID-19 como um pivô que, ao colocar em colapso vários paradigmas e mecanismos de funcionamento do nosso corpo social, contribuiu para que muitas pessoas se vissem angustiadas e em situação de estranhamento frente ao dissolvimento de significados e modos de ser que pareciam antes inabaláveis.
Um pivô que pode evidenciar os limites de certas categorias e formas de se compreender o mundo, uma vez que estas tentem garantir certa “estabilidade” e “normalidade” aos modos de ser humano e seu cotidiano. Por mais que alguns desses significados e convenções sejam importantes para que possamos viver em sociedade e co-habitar o mundo, também é importante que entendamos que eles não são verdades e leis a priori que nos determinam. Pelo contrário, tais significados e sentidos estão intimamente relacionados ao existir humano e, por consequência, à nossa finitude.
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Até aí algumas leituras apressadas poderiam logo concluir: “ahh então quer dizer que o coronavírus pode trazer para mais perto de mim a possibilidade da minha morte e a fragilidade do nosso mundo, fazendo com que eu possa viver essa pandemia com estranhamento e sofrimento. É uma ótima oportunidade para, depois que tudo isso acabar, eu viver a vida mais intensamente e aproveitar melhor cada segundo da minha existência?!”
Sim, mas não.
Em suma, a pandemia pode sim nos colocar diante da nossa condição como entes finitos e responsáveis pelo nossos próprios modos de existência. Mais do que isso, ela pode sim evidenciar a fragilidade de algumas certezas e verdades que usamos para sustentar o nosso dia-a-dia; mostrando a indissociabilidade da relação homem-mundo e os significados que permeiam tal relação.
Todavia, devemos lembrar que a nossa sociedade, especialmente a brasileira, é marcada por inúmeras relações de desigualdade, envolvendo questões de classe, gênero, raça, entre outras. Desta maneira, assim como não podemos refletir sobre a existência humana sem considerar a sua finitude, não podemos pensar sobre o social sem levar em conta as relações de poder que marcam o nosso dia-a-dia. Por mais que nos tranquemos na abadia, não deixaremos de ser seres finitos, nem deixaremos de viver em uma sociedade estruturalmente desigual.
Sendo assim, não parece ser uma grande novidade afirmar que, diante do contexto de pandemia em que nos encontramos, uma mulher negra que mora na Brasilândia vai ter sua finitude desvelada a partir de condições completamente diferentes do modo como essa possibilidade se revela para mim, um homem branco que escreve da zona sul de São Paulo.
Não podemos deixar de considerar que, tratando-se de uma possibilidade irremissível que diz respeito à cada um, cada indivíduo pode defrontar-se com sua fragilidade de modo singular e único. Mas também devemos lembrar que a compreensão que cada um tem sobre o vivido é transpassada pelos significados e categorias que a sociedade e o mundo atribuem à cada indivíduo; isso se dá de maneira mais intensa ainda em uma sociedade desigual e preconceituosa como a nossa.
Pensemos como exemplo o caso dos mecanismos e formas de controle que o Estado e os demais órgãos de saúde lançam mão para que a população não se infecte com o vírus. Tais mecanismos nos informam, direta ou indiretamente, sobre o risco de sermos infectados ou infectarmos os outros: lavar as mãos por causa do risco de colocar a mão infectada na boca, não frequentar multidões por conta do risco de estar infectado e tossir em outra pessoa, usar máscara pelo risco de poder transmitir o vírus pela saliva … Independente da forma de prevenção, todas elas dizem respeito à um risco, que, no final das contas, pode fazer com que eu me depare com a minha fragilidade de poder ser contaminado e, se tomarmos às últimas consequências, a possibilidade de morrer.
Sendo assim, eu, na minha experiência como morador de um bairro nobre na zona sul paulistana, lavo minhas mãos frequentemente, sempre saio de casa com álcool gel e máscara, evito aglomerações, exerço minhas atividades (remuneradas ou não) de casa e evito sair desta quando não necessário. Por mais que não possa afirmar que isso se dê com todos, afinal, toda existência é única e singular; posso falar que, na minha experiência, essas práticas preventivas de risco atualizam constantemente a minha compreensão sobre a proximidade da finitude que marca o meu existir.
Mas essas formas de prevenção são as mesmas para toda a população? E quando estamos falando de uma população que não tem acesso à água limpa para lavar as mãos tantas vezes ao dia? E quando se trata de trabalhadores informais, que não podem parar de trabalhar porque os 600 reais não são o suficiente para garantir comida na mesa? Será que a morte se anuncia para essas pessoas da mesma maneira que se anuncia para mim ou para alguém que detém das condições materiais para ficar em casa e prevenir-se do vírus? Será que a fragilidade e a finitude já não foram desveladas antes por outras circunstâncias e outras situações?
A esse respeito, Douglas Barros, filósofo e apresentador do podcast “Psicanálise de Conjuntura” levantou algumas considerações importantes. No episódio cujo tema foi os contágios do vírus na periferia, Douglas foi enfático ao afirmar que, baseado na sua experiência como homem periférico, conforme o endurecimento das políticas de quarentena, é sabido que o braço armado da PM terá um foco muito mais ostensivo nas favelas e suas comunidades.
Tal uso da força policial nas periferias já é realidade, mas o que Douglas aponta é para uma intensificação das intervenções da PM como forma de disciplinação e prevenção de contágio nas favelas. Intervenção, ele continua, que pode até chegar a instauração de um Estado de Sítio, com toques de recolher, e outros mecanismos de “prevenção de contágio”.
Não precisamos procurar muito para constatar numéricamente que os “alvos preferenciais” da violência policial no Brasil são negros e pobres moradores dos “territórios de pobreza”. Também não precisamos ir muito longe para observar que as favelas possuem maior número de cidadãos negros do que nas regiões “nobres” da capital.
A colocação de Douglas nos coloca diante de um fenômeno que aproxima a morte como que “duplamente”. Afinal, como política de prevenção, à polícia, que já mata mais pessoas negras e periféricas, poderá atuar mais ostensivamente nas periferias, onde há maior população negra. Não se trata apenas de um exemplo de fragilidade existencial desvelada a partir das políticas de prevenção contra o COVID-19; a possibilidade de morrer também se revela para a população negra e periférica a partir de um problema que não é novidade no Brasil: a violência policial.
Por mais que seja importante, não me proponho a discutir amplamente a atuação das polícias nas favelas e as diferentes políticas de prevenção que estão sendo adotadas nos territórios municipais. Mas o que busco refletir é sobre o grande abismo que existe entre o modo como me deparo com a proximidade da minha finitude, desvelada a partir das medidas de prevenção que tenho de me submeter; em relação ao modo como muitos cidadãos periféricos (mas posso falar também da população LGBTQ+, da população em situação de ruas, da população indígena, e de outras populações marginalizadas e suas intersecções identitárias) tem a sua possibilidade de morte anunciada por via de outras políticas de prevenção, neste caso, a intensificação da atuação policial.
Novamente, a experiência que cada um tem sobre sua mortalidade é única; pessoas em contextos sociais muito similares podem compreender uma mesma situação de modos particulares. Mas será que a pandemia não revela algo que vai além da nossa própria fragilidade? Será que a pandemia não desvela alguma relação entre as diferenças sociais e a compreensão sobre a finitude que marca cada um?
Não levanto tais questionamentos visando problematizar a condição de finitude de todo ser humano. Mas busco pensar sobre os atravessamentos sociais e identitários que perpassam a forma como cada um depara-se com a sua morte; especificamente nesse contexto pandêmico. Afinal, e experiência que Douglas Barros (e provavelmente outras pessoas negras que habitam a periferia paulistana) tem sobre a presença da polícia como modo de prevenção nas favelas é algo que passa longe da minha experiência sobre prevenção contra o vírus.
Se procurarmos pelos números oficiais divulgados pela prefeitura, podemos observar que, por mais que os bairros nobres terem maior número de casos, os bairros periféricos, como Brasilândia, Itaquera e Sapopemba, apresentam maior mortalidade. Isso é: apesar de ser um vírus que chegou no país através das classes na parte de cima da pirâmide (“importada” diretamente da Itália) e infectar mais as pessoas dessas classes, é um vírus que mata mais as populações na base da pirâmide que dependem mais da efetivação de políticas públicas de saúde.
Por mais que seja considerado um “vírus democrático” em relação à contaminação, infectando a todos sem distinção identitária, as consequências desta contaminação dependem muito das condições materiais as quais estamos submetidos. Mais que isso, exemplifica muito bem aquilo que o filósofo camaronês, Achile Mbembe descreve como Necropolíticas, isto é, políticas de morte adaptadas pelo Estado que operam a vida e a morte dos cidadãos. Neste caso, as populações que dependem unicamente do serviço público de saúde (que em alguns estados já está em colapso) e não dispõe de condições mínimas de sobrevivência são as mais “morriveis” (ou as mais matáveis).
Podemos pensar que, além de trazer luz a nossa condição de mortais, a pandemia escancara a desigualdade que assola (e sempre assolou) a nossa sociedade. Mais do que isso, mostra como essas relações de desigualdade vão influenciar na forma como cada um experiência a possibilidade da finitude: polícia para alguns, máscara de baile para outros.
Não quero propor aqui uma hierarquia ou categorização dos sofrimento e angústias perante a pandemia. Minha formação como psicólogo ensinou-me que, o acesso às angústias e sofrimentos humanos se dá pela via da compreensão das vivências, não da racionalização explicativa dos afetos.
Mas não precisamos hipotetizar (ou talvez alguns precisem) para saber que a condição de finitude exposta pela pandemia é vivenciada de formas diferentes por cada indivíduo; mais diferente ainda tratando-se de indivíduos de classes, gêneros e raças diferentes, que dispõe de condições materiais tão diferentes quanto os modos que experienciam o vivido.
Indo um pouco além com a discussão, em entrevista ao site da Folha de SP, Achille Mbembe, trouxe algumas considerações pertinentes sobre o atual quadro global. De acordo com o filósofo, na situação em que nos encontramos, a nossa própria morte depende muito dos demais membros da nossa comunidade. Todos podem ser infectados, ou infectar os outros.
O que Mbembe nos mostra é como a nossa própria finitude e fragilidade existencial pode ser escancarada não só a partir da pandemia, mas também a partir da simples presença dos outros. Conforme ele mesmo afirma, “Agora todos temos o poder de matar. O poder de matar foi totalmente democratizado. O isolamento é precisamente uma forma de regularizar esse poder.”
Contudo, a psicóloga Daniele Elisa nos alerta sobre a importância de “desneutralizar” a abrangência desta frase de Mbembe e inseri-la nas tramas factuais em que nos encontramos. Durante a live “Crise e Crítica: Vulnerabilidade e Políticas de Cuidado“ promovida pelo Instituto Dasein, a psicóloga colocou que, mesmo se afirmarmos que existe uma democratização do poder de matar, não nos vemos fora da questão de poder e suas diferentes facetas de controle.
O que Daniele nos mostra é que, mesmo eu me assumindo como um potencial assassino dos demais ao meu entorno, não sou eximido das estruturas de desigualdade e relações de poder que estruturam a nossa sociedade. Ou mais: podemos falar que o vírus é “não-identitário” e não faz distinções entre quem vai infectar, mas a experiência que teremos sobre essa pandemia, incluindo sobre a nossa condição de fragilidade, é transpassada por relações sociais de desigualdade.
Deste modo, retomo ao conto de Poe, agora mais atento para o grupo privilegiado dos escolhidos de Próspero. Sim, eles tentaram se colocar como intocáveis frente a inevitabilidade da morte. Sim, eles se esconderam da responsabilidade que recaia sobre cada um a respeito de sua existência.
Mas também, ao se trancar na abadia, Próspero deixava de fora o restante da população. Mais do que a possibilidade certa da morte, os muros fortificados foram construídos para deixarem de fora as relações de desigualdade que marcavam aquela sociedade; para deixarem de fora a desproporcionalidade das condições materiais de existência, que marcavam a forma como cada cidadão deparava-se com sua finitude existencial.
Assim como príncipe não deixou de ser um ente mortal, o racismo, o machismo, a LGBTfobia, as desigualdades de classe não deixaram de existir porque ele se trancou na abadia; elas mantiveram-se. Se mantiveram nas condições materiais adversas que a população dispunha para se prevenir da peste, na presença de serviçais e músicos dentro da abadia para servirem aos convidados de Próspero, no privilégio de uns poderem se encerrar em uma abadia suprida enquanto outros morrem desprovidos de qualquer suporte lá fora … as relações de desigualdade mantiverem-se e se aprofundaram; mas o príncipe também não quis ouvir essa verdade.
No nosso atual contexto de Morte Rubra, podemos afirmar o quanto quisermos que é um vírus não-identitário e que o poder de matar foi democratizado. Mas isso não faz com que nos vejamos fora das relações de desigualdade estruturais da nossa sociedade.
Pelo contrário, o vírus anuncia e berra a desigualdade pela forma como cada indivíduo experiencia sua própria finitude; revelando que, por mais que todos vamos morrer, alguns vão morrer na fila por um leito público, outros vão morrer em hospitais particulares com um mínimo de conforto, já outros podem morrer no meio da calçada quando nem sabiam que estavam vivos.
Talvez a atual pandemia nos diga algo sobre a finitude escancarada de uma sociedade cada vez mais desigual, onde a própria experiência sobre a morte é regida a partir de tais relações de poder. A Morte Rubra, inaugural do século XXI, revela a mortalidade que marca toda a sociedade. Mais que isso, mostra como o social também marca a forma como lidamos com a nossa própria existência e, por consequência, a nossa própria morte.
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[título atualizado no dia 22 de maio de 2020]
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