Autora de 'Controle', Natalia Borges Polesso celebra literatura inclusiva abordando amores LGBTs
- Giovana Proença
- 28 de jun. de 2020
- 6 min de leitura
\\ ENTRELINHAS
"É importante que tenhamos diversidade em termos de autoria, pra que possamos ler sobre diferentes perspectivas com diferentes personagens"
Por Giovana Proença

A escritora Natalia Borges Polesso - Laine Barcarol/Divulgação
A literatura brasileira ganha novos ares de representatividade com Natalia Borges Polesso. O Frentes Versos recebeu as respostas da autora – que aceitou o diálogo virtual com nossa redação - um dia após o anuncio de Controle como Melhor Obra Literária no Prêmio Vivita Cartier, do Concurso Anual Literário da Prefeitura de Caxias do Sul. A escritora gaúcha, que estreou em 2013 com Recortes para álbum de fotografia sem gente, está em ascensão literária, seu primeiro livro venceu o Prêmio Açorianos e Amora (2016) adicionou a conquista do Jabuti, maior premiação do país, no currículo de Natália.
Amora proseia em torno dos relacionamentos lésbicos. Mais do que abordar a homossexualidade feminina, os contos são sobre mulheres diversas em suas vivências sentimentais, transitando entre o amor e seu feminino. A temática se repete em Controle. Em seu primeiro romance, Natalia Borges Polesso nos entrega uma protagonista epilética. Sentindo-se retirada do controle da própria vida, Nanda passa seus anos de formação em meio a proteção exacerbada e na iminência das crises e da ansiedade, encontrando amparo na amiga Joana. Por trás, esconde uma paixão mal delineada simultânea ao afeto que escorre incontido.
Natália define Nanda como principal elemento da narrativa, “a história é muito mais sobre saber de si. Nanda precisa saber dela, do que ela gosta, o que ela pode fazer, o que ela quer fazer e de quem ela quer gostar.” Conhecemos a trama pelo olhar fragmentado da personagem, que vive suas lacunas, arquitetadas com a perícia e a sutileza da narração da autora, que compara o ritmo de escrita a um passeio de bicicleta.
Natália vê a representatividade LGBT na literatura como uma oportunidade de novas perspectivas e identificações. Ela é categórica, a sexualidade de Nanda é um aspecto que se integra a descoberta de todo um mundo em desenvolvimento. “Acho que a Nanda vive sua sexualidade da forma que pode, da forma que consegue, isso também é viver totalmente. Temos que pensar em como o mundo é formatado para aceitar restritas formas de experiência ou elas não são válidas. Essa é a grande questão do livro.”
Controle é o retrato de uma busca por experiências e pela própria interioridade. O prodigioso êxito narrativo de Natalia Borges Polesso triunfa por apresentar vivências que passam despercebidas em mundos que se mantém fechados para a pluralidade. Com o controle do livro em mãos, dosa com equilíbrio a costura de temáticas como a sexualidade, a epilepsia, o afeto e acima de tudo; a construção da identidade.
Frentes Versos : Em Controle, vamos uma personagem retirada do controle da própria vida. Como foi escrever isso?
Natália Borges Polesso: A Nanda é o elemento principal da narrativa. Tudo é sobre ela e o livro é em primeira pessoa. Então, precisei pensar muito bem na linguagem e em como ela vai mudando no decorrer do livro, afinal, começamos com uma Nanda de 13 anos e terminamos com uma Nanda de 34 anos. Precisei sempre medir a autoconsciência da personagem, pensar em metáforas para descrever algumas sensações e sentimentos. Foi muito bom pensar nesses termos, um exercício bem interessante de controle, pra mim, como escritora.
FV : Como foi a pesquisa para representar uma personagem com uma condição como a epilepsia?
NBP : Primeiro eu li muitos artigos, busquei definições da OMS, conversei com amigos e amigas médicas, tentei buscar também artigos antigos sobre epilepsia, como era vista e tratada, afinal o livro vai dos anos 1990 aos 2014 e, sabemos muito bem que a ciência é dinâmica. Comecei a seguir páginas como a Epilepsy Foundation e outras fundações e grupos e isso me levou ao segundo passo, que foi começar a seguir pessoas com epilepsia, participar de fóruns, seguir canais de youtube. Foi tudo muito rico, especialmente ouvir os depoimentos. Porque a primeira parte da pesquisa me deu ótimos recursos de base, mas quem narra a história é a Nanda, e a Nanda vai aprendendo a lidar com tudo muito lentamente.
FV : A questão da saúde mental está muito presente, como foi a construção da ansiedade dentro do livro?
NBP : Essa é uma questão muito cara pra mim, acho que essa é a parte do livro com a qual eu, Natalia, me relaciono mais diretamente. Eu fui uma adolescente que sofreu de ansiedade e síndrome do pânico, que passou algum tempo com medicações erradas e se sentindo super estranha dentro da própria pele. Então, nessa parte, eu mergulhei muito na minha vida, no meu passado adolescente. Eu e Nanda nos aproximamos nisso, mas nos afastamos bastante em como lidamos com tudo. Eu sempre fui muito sociável e tive que fazer um esforço imenso pra não perder o ano letivo. Uma coisa muito legal, foi que, no meu caso, a escola se envolveu e criou até horários especiais para eu chegar e sair sem precisar passar por todes alunes juntes.
FV : Você pensou no ritmo de escrita de “Controle” para combinar com a temática da tensão iminente dento do livro?
NBP : Demais! O livro, no primeiro capítulo, é um redemoinho, uma bagunça! Depois, os leitores e leitoras começam a pedalar numa reta, mais ou menos conhecendo o caminho. Então vem uma subida leve e logo uma subida intensa, até que estamos lá em cima de um morro. Aí é só soltar os freios e descer tudo.
FV : Como você pensou as relações que se estabelecem entre Nanda e as outras personagens para ambientar essa falta de controle?
NBP : Numa espécie de “estou aqui por inércia”, não que eu queira.
FV : A música tem um papel muito importante dentro do livro. O que isso representa?
NBP : Esse livro era uma encomenda de outra editora e eu escrevi ele em 2015. A proposta era uma coleção de música e narrativa longa. Então, a música vem daí, dessa ideia, que no fim não foi adiante. Mas eu fiquei ali com a Nanda na gaveta. O livro não era o mesmo que está publicado hoje. Era menor e bem menos interior. A proposta editorial era outra. O que eu tentei fazer com a música ali foi criar uma camada para Nanda, uma interface entre as coisas que ela sentia e teve que ir aprendendo a dizer e o que chega aos leitores e leitoras.
FV : Como você pensou as lacunas dentro da história Nanda?
NBP : Propositalmente. Tanto as lacunas de quando ela tem as convulsões, porque o livro é em primeira pessoa e ela não poderia se narrar inconsciente quanto as lacunas de tempo, porque sua vida é permeada desses grandes borrões, os quais ela não lembra ou não tem muita certeza sobre. É pras leitoras e leitores terem as sensações junto com ela, inclusive desses apagamentos.
FV : Qual a importância da literatura LGBT e da representatividade?
NBP : É importante que tenhamos diversidade em termos de autoria, pra que possamos ler sobre diferentes perspectivas com diferentes personagens, e também é importante que possamos nos identificar com as personagens apresentadas nos livros. Essa ausência e silêncio é muito triste. Então, quanto mais literatura LGBT tivermos, mais representatividade, mais chances de narrativas plurais.
FV : Como foi a construção dessa sexualidade que não é vivida totalmente pelas limitações do mundo da Nanda?
NBP : A questão da sexualidade é um dos aspectos da personagem, e a ideia foi explorá-la junto desse mundo interno em desenvolvimento. Acho que a Nanda vive sua sexualidade da forma que pode, da forma que consegue, isso também é viver totalmente. Temos que pensar em como o mundo é formatado para aceitar restritas formas de experiência ou elas não são válidas. Essa é a grande questão do livro. A Nanda quer viver e ela descobre que vive, ela faz todo esse percurso de memória para escolher registrá-lo nessa perspectiva. Evidente que há uma crítica sobre como ela se escondeu, como ela se protegeu e tentou lidar com suas questões todas, mas isso não invalida suas vivências. São experiências importantes que aconteceram como poderiam acontecer e isso também é válido.
FV : Qual você acha que é a principal mensagem desse afeto contido por tantos anos entre a Nanda e a Joana?
NBP : Bem, tem várias camadas aí. Em termos de amizade, não há nada contido. Elas sempre estiveram uma na vida da outra, com todos os seus dramas. Eu, pessoalmente, acho que a Nanda e Joana nunca ficariam juntas. Joana nunca soube que Nanda seria apaixonada por ela, nem Nanda sabe disso direito, ela não elabora isso. É uma aposta dos leitores e leitoras. Ela não fala isso pra ninguém. Ela diz alguma coisa pra umas desconhecidas. A história é muito mais sobre saber de si. Nanda precisa saber dela, do que ela gosta, o que ela pode fazer, o que ela quer fazer e de quem ela quer gostar.
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