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A distorção do espaço-tempo como forma narrativa

  • Foto do escritor: Frentes Versos
    Frentes Versos
  • 16 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 18 de ago. de 2020

\\ ESPECIAIS

Esses dois quadrinhos são dois verdadeiros tratados sobre a capacidade que só a arte tem de distorcer o espaço-tempo para transformá-lo em agente narrativo.

Por André Cáceres, colaboração para Frentes Versos

Página do quadrinho "Aqui", de Richard McGuire.

Desde que o físico alemão Albert Einstein (1879-1955) propôs, em sua Teoria da Relatividade Geral, que espaço e tempo não são categorias fixas e absolutas, mas dependem do ponto de vista do observador que as observa — algo que pode soar contraintuitivo, mas já foi comprovado dezenas de vezes nos últimos cem anos —, o lugar da humanidade no universo foi alterado definitivamente, e a arte passou a refletir essa perspectiva relativística, seja na fragmentação da forma na pintura cubista, na fragmentação da mente na literatura moderna ou na fragmentação do tempo no cinema de vanguarda. Sendo uma das artes que surgiram quase concomitantemente à teoria de Einstein, os quadrinhos não deixaram de refletir esse novo paradigma físico, filosófico e ontológico.


Assim como o crítico literário russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) demonstra no segundo volume de sua Teoria do Romance, As formas do tempo e do cronotopo (Editora 34), os meios pelos quais a literatura retrata tempo e espaço (cronotopo) desde a antiguidade e o impacto da Relatividade sobre a forma do romance no século 20, também o teórico italiano Daniele Barbieri (1957-) demonstra, em seu estudo As linguagens dos quadrinhos (ed. Peirópolis), como os quadrinhos manipulam, deformam e distorcem o cronotopo se apropriando de técnicas da fotografia e do cinema, mas também criando novas estratégias.


Duas graphic novels relevantes publicadas no Brasil nos últimos anos ajudam a compreender a relação que os quadrinhos estabelecem com tempo e espaço, transformando esses elementos em dispositivos narrativos e mesmo personificando-os em certos casos. As obras são Um pedaço de madeira e aço, do autor francês Christophe Chabouté (ed. Pipoca & Nanquim), e Aqui, do quadrinista norte-americano Richard McGuire (ed. Quadrinhos na Cia.).


"Um pedaço de madeira e aço", de Christophe Chabouté.

Chabouté é um dos mestres na arte de representar a solidão, a angústia e a melancolia em seus quadrinhos em preto e branco com traços finos e poucas falas, como sua adaptação de Moby Dick e Solitário, que retrata um faroleiro deformado e apartado da sociedade. Em Um pedaço de madeira e aço, o artista narra toda a história (se é que se pode dizer que há uma história) do ponto de vista de um banco de praça.


A partir de personagens que aparecem apenas uma vez ali e dos recorrentes, como o mendigo que dorme sobre ele, o cachorro que urina nele e o casal de idosos que passam o tempo ali, Chabouté oferece fragmentos mínimos de realidade e instiga o leitor a investigar cada gesto das pessoas que passam ao largo do banco.


Não há, no entanto, a antropomorfização do objeto, que permanece apenas um pedaço de madeira e aço. A operação realizada por Chabouté é a caracterização do cronotopo identificado pelo banco numa praça pública, de modo a alargar aquele espaço e aquele tempo, mostrando os romances que se desenrolam ali, os dramas humanos, as infinitas

histórias que percorrem aquele local em tempos diferentes.


Página do quadrinho "Um pedaço de madeira e aço", de Christophe Chabouté.

Mais evidente ainda nessa questão é o quadrinho experimental Aqui, de Richard McGuire. A obra mostra em todos os painéis um mesmo canto de uma casa, sem nem mesmo alterar a perspectiva, como se houvesse uma câmera fixa ali desde a aurora dos tempos até o futuro distante.


"Aqui", de Richard McGuire.

O tempo em Aqui não é linear,

cada painel tem a data em que se passa escrita num balão e cabe ao leitor montar o mosaico de tramas narradas por aquele único cômodo. Várias famílias passam pela casa em décadas diferentes, diversas histórias se desenrolam no local. As mudanças são evidenciadas pelas trocas de mobília e papel de parede. Tudo muda, mas tudo permanece igual.


Em alguns momentos, a obra volta para a pré-história, antes mesmo do surgimento da raça humana, ou para uma época anterior à construção da casa; em outros, avança para o futuro incerto. Então retorna para a data em que o cômodo estava sendo erguido. Nessas idas e vindas, McGuire mostra a efemeridade da vida, mas também brinca com a relatividade do tempo por meio da fixação de um ponto no espaço.


Conteudisticamente, ambas as obras trazem em si uma melancolia inerente ao desnudar a ideia da impermanência das coisas, evidenciar nossa finitude diante de um universo alheio à nossa própria existência. Mas formalmente é que Um pedaço de madeira e aço e Aqui se destacam, fazendo lembrar das ideias do cineasta russo Andrei Tarkovsky (1932-1986), para quem fazer cinema é esculpir o tempo. Esses dois quadrinhos são dois verdadeiros tratados sobre a capacidade que só a arte tem de distorcer o espaço-tempo para transformá-lo em agente narrativo.


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(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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